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5 anos em Nova York – os desafios no primeiro mês morando fora

Passava das 11 horas da noite do dia 3 de janeiro de 2014 quando o avião aterrissou no JFK. Apesar da ideia de estar chegando a sua nova cidade parecer muito romântica, a verdade é que eu estava cansada e tudo que eu queria era ir logo para casa – não antes sem conferir se  nossas malas, que haviam saído de Miami bem antes de nós, estariam na sala de bagagens. Confesso: eu já estava preparada para o pior. Com toda a confusão de voos atrasados e cancelados, e passageiros sendo pipocados em voos diferentes, era grande a chance de perderem nossas malas.

Aquelas malas tinham um significado especial. Eram tudo que tínhamos e, para mim, que nunca achou que fazer mala era um processo simples, foi complicado. Foram malas que começaram a ser concebidas a partir do momento em que tivemos a confirmação de nossa mudança.Talvez muito por conta de que aquelas malas eram muito mais do que malas carregando roupas e outros objetos. Foi um processo dolorido, mas que ensinou muito sobre o desapego a coisas materiais. Cada item que eu escolhia levar ou deixar  lembrava de que eu estava partindo para uma vida nova, que trazia muita excitação, mas, também, muito medo do desconhecido e de tudo que eu iria viver. Felizmente, aquelas quatro malas, surradas e uma delas quebrada, estavam na sala de bagagens, em meio a centenas de outras malas esperando seus donos. Ainda  lembro que um dos pensamentos que cruzou a minha mente vendo aquela imensidão de malas foi: mas, e se alguém simplesmente rouba uma mala dessas?

Eu não lembro quantos graus estavam fazendo naquela noite, mas certamente o termômetro marcava temperaturas negativas com sensação mais baixa ainda. Antes de sairmos para a área de desembarque, abri uma das malas à procura de um casaco e devo ter pegado um cachecol também. Estava com camiseta de manga curta, jeans e um tênis básico – look, digamos, nada apropriado para as temperaturas da época. Nunca vou esquecer a sensação que tive quando nos dirigimos para a área externa do aeroporto para pegar o táxi. O ar gelado atingiu em cheio o meu rosto e era difícil até de respirar.  Naquela hora, só lembrei os meus momentos arrumando as malas e subestimando o inverno do hemisfério norte e as palavras de minha mãe avisando: “tu não tem noção do frio que faz lá, né?”.  Sábios conselhos. Mãe é mãe.

Do aeroporto até o apartamento no Brooklyn – que havia sido encontrado pelo Craigslist e alugado pela empresa para o primeiro mês na cidade – lembro ver a neve acumulada nas laterais da estrada. Eu nunca tinha visto neve na vida. Quando chegamos ao prédio, no bairro de Cobble Hill, e fui descer do táxi, percebi a neve acumulada no meio-fio e fiquei assustada.  Levamos nossas malas para o apartamento – que ficava no terceiro andar de um prédio com muitas escadas. A namorada do host estava nos esperando com as chaves – já passava de 1h da manhã, e eu fiquei bastante apreensiva com o quanto alugamos os dois com aquela confusão de voos cancelados e atrasados nas últimas 24 horas. Quando ela abriu a porta para nós e nos recebeu com um sorriso e um: “You’ve made it!” eu fiquei feliz. Foi simples, mas significou muito depois de todo o transtorno para chegar até ali. Naquela noite, deitamos, cansados e aliviados. Estávamos, oficialmente, começando nossa vida nova.

Era uma vida nova que não veio completa, claro. A única coisa certa até ali era o emprego do Thiago. O resto precisava ser resolvido, e o apartamento no Brooklyn era a nossa base de operações, digamos, até resolvermos o que tínhamos para resolver. Na realidade, o aluguel foi fechado por 30 dias – tempo que não poderia ser extendido, já que o host voltaria de sua viagem (ele estava esquiando em Utah) depois desse prazo. Era aquilo: tínhamos que encontrar nossa casa nesse tempo – ou ir para outro apê temporário. Essa opção, honestamente, não era uma opção e sabe por quê? Era estranho. Eu mal consegui desfazer minhas malas naquele apartamento. Aquela era a casa de outra pessoa; não era a minha casa. Tinha o gosto pessoal daquela pessoa, suas memórias, suas lembranças, seus móveis, suas roupas, seus objetos pessoais. Eu sabia que era temporário e era como se a vida em Nova York não tivesse começado de verdade. Eu não sei quanto a vocês, mas quando eu tenho alguma questão muito grande e importante em minha vida para ser resolvida, todo o resto fica meio que em modo de espera.

Logo nos primeiros dias, Thiago já queria apressar a busca pelo nosso lar. Eu, novamente cega pela ignorância, já que não tinha ideia do quão exaustivo, difícil e desgastante era encontrar um apartamento em Nova York, dizia que tínhamos tempo e que ia dar tudo certo. Até que começamos a pesquisar locais e marcar horários, e a realidade começou a me dar alguns tapas na cara. Sabíamos, por cima, que morar em Manhattan era caro e, por isso, concentramos nossas buscas no Brooklyn. Como curtimos a área onde estávamos, queríamos encontrar por ali. Mas, a tarefa não era fácil. Apartamentos pequenos, muitas vezes escuros, prédios velhos, opções em andares alto – de escada – sem contar a falta de conveniência. Eu, acostumada a vida toda com máquina de lavar roupa, de repente tive que enxergar a minha vida com uma rotina nova, em que lavar roupa vira uma tarefa chata, para a qual você precisa sair de casa e dedicar um bom tempo, toda semana. Sim, assim como muitos, eu também sempre achei o máximo ver as lavanderias americanas, e até registrei meu grande momento lavando a roupa pela primeira vez num desses estabelecimentos. Só que, no começo, tudo é novidade. Quando vira rotina, não é tão interessante assim carregar suas roupas até uma lavanderia e ficar esperando elas ficarem limpas e secas. Ok, a essa altura você deve estar pensando: pobre menina. Que grande problema. Realmente, isso não é algo que chega a ser um problema, é apenas um exemplo das pequenas coisas que precisam ser adaptadas e que mostram para a gente como, no fundo, alguns de nós são resistentes à mudança. Há cinco anos, era inconcebível, para mim,  ter que ir ou mandar as roupas para alguma lavanderia fazer o serviço. Hoje, a história já é outra.

Naquele primeiro mês, procurando apartamento, a minha noção de geografia da cidade era zero. A gente foi em cantos do Brooklyn que eu não faço a remota ideia de onde eram. Vimos apartamentos que realmente… só vendo para crer. É interessante observar tudo que nos é vendido pela mídia, pelo cinema e pela televisão quando se fala em Nova York. Carrie Bradshaw é, provavelmente, a maior mentira que já nos contaram sobre a cidade – afinal, não há como se manter num apartamento daquele tamanho, numa área nobre do Upper East Side, gastando horrores com grifes com o que ela fazia. Parece que viver aqui é como padecer no paraíso de um sonho perfeito, mas a realidade é bem diferente. Não, não é que Nova York não seja esse lugar legal, interessante, bonito e cheio de opções. É. E quem mora em Nova York tem a vantagem de estar em um lugar com uma das médias salariais mais altas do mundo – mas também é um dos mercados mais competitivos do mundo. E o preço que se paga por isso é, literalmente, alto: um custo de vida caro, com aluguéis que não correspondem em nada àquilo que você tem em troca. São espaços que custam alguns mil dólares e se valorizam pelo simples fato de estarem num dos pedaços de terra mais visados do planeta. E a verdade é que não dá para gastar 70% do salário num aluguel e não aproveitar o que a cidade tem para oferecer. É preciso equilíbrio, é preciso ter limites (até porque é exigido que você ganhe 40 vezes o valor do aluguel anualmente). Ganhar em dólares pode parecer a solução dos problemas para muita gente – mas jamais esqueça que as pessoas ganham em dólares e… gastam em dólares. Durante as três vezes em que busquei apartamentos nesta cidade, a sensação que eu tive era a mesma de alguém correndo atrás de um outro alguém que claramente não está a fim. No caso, eu era a pessoa correndo atrás, e Nova York era a pessoa me ignorando.

Eventualmente, uma das brokers (o agente que te leva para ver apartamentos) nos perguntou se não considerávamos morar em Manhattan. Ela disse que teria algumas opções para nos mostrar e pensamos: por que não? Quando chegamos ao ponto de encontro, nosso coração até bateu mais forte. Eu não acho que morar na ilha te faz uma pessoa melhor que as outras – porque né, por mais que as  aparências ajudem, eventualmente é a sua cara que vai ser dada a tapa, e pouco importa o que você tem ou deixa de ter. Mas Manhattan era algo que nem passava pela nossa cabeça, e quando a broker sugeriu e nós chegamos no Upper East Side (que eu nem sabia que tinha esse hype todo por conta de Gossip Girl), nós gostamos da ideia. Os preços dos apartamentos nas áreas sugeridas pela broker eram iguais aos preços dos apartamentos que estávamos vendo no Brooklyn. Com a diferença de que o espaço era menor. Nosso objetivo ao morar fora era ter experiências, então, pensamos: legal, podemos morar na ilha e ter um pouco mais de conveniência. Vimos opções muito legais. De fato, nós encontramos um apartamento que era perfeito. Lembro até hoje daquele apartamento, de como fiquei feliz ao entrar naquele espaço e constatar que ele tinha tudo que queríamos em termos de espaço, conveniência e localização. E dentro do nosso orçamento. Até ali, a gente não tinha chegado aos finalmentes do processo de alugar um apartamento, porque não tínhamos gostado de nada. Entretanto, ao chegar ao escritório da broker para preencher a papelada de application  – um formulário de “candidatura” para o apartamento – fomos informados de que, provavelmente, não seríamos aprovados. Foi aí que eu conheci uma pedra no sapato chamada credit score. Basicamente, é o seu histórico de pagador, sua nota. Uma nota que diz ao mundo (aqui) que você é uma pessoa que paga suas contas em dia, que tem “crédito na praça”, basicamente. E qual era o nosso score? Ele não existia. Eu já disse em outras oportunidades que morar fora é zerar a vida. A não ser que você seja uma pessoa de muito renome no Brasil – e olhe lá – você volta à estaca zero. Você não tem mais referências, você não tem mais sua identidade. O que você era ou fazia lá não vai contar muitos pontos aqui. Construir um credit score leva meses. A broker explicou que o nosso cadastro não seria aceito. Sabe qual a condição imposta para termos chance de alugar o apartamento? Um ano adiantado de aluguel. U-M A-N-O. Mais de 25 mil dólares. Assim. Na lata. Ingênua, eu ainda tentei listar fatos de nossa vida para provar que éramos de confiança. Tolinha, eu. Ali eu percebi que por mais que as experiências vividas no Brasil tenham moldado a pessoa que sou hoje, elas não iriam, na prática, ajudar muito aqui. Era vida zerada. Real. Oficial.

Aquele dia eu fiquei muito frustrada. Muito mesmo. Thiago era sempre doce, tentava me acalmar, fazer eu me sentir melhor. Eu abri mão de muitas coisas para nós estarmos aqui, principalmente de minha independência – assunto para outro dia – mas o começo foi pesado para ele também. Ele também estava se adaptando a um lugar novo – e a um trabalho novo, uma rotina nova. Nunca vou esquecer o dia em que fomos ao supermercado e eu percebi na cara dele a preocupação com os preços – já que, no começo, é impossível  não converter. Olhei para cara dele e falei: “tu tá convertendo e achando tudo caro, né?”. Ele deu risada e concordou. Em cinco anos aqui, nós passamos por muitos desafios, mas o Thiago nunca deixou a peteca cair. Nunca foi uma pessoa de reclamar, e posso dizer com toda a certeza do mundo, que ele se tornou uma pessoa muito melhor do que já era. Sorte a minha.

Foi ele também o responsável por encontrar o nosso apartamento. Eu tinha uma viagem de trabalho para Medellin, na Colômbia, em meados de janeiro, e ele ficou sozinho em Nova York com a função de encontrar apartamento. Quando eu voltasse, esse assunto teria que estar resolvido. Do contrário, teríamos que ir para outro Airbnb – o que, àquela altura, já era uma possibilidade. Thiago sempre foi muito prático. Ele falava que, se fosse o caso, a gente continuaria em Airbnb até ter um credit score para poder ter mais opções. Enquanto eu estava em Medellin, nevou pela primeira vez em Nova York desde que tínhamos colocado os pés na cidade. E foi quando Thiago finalmente encontrou o nosso lar. Eu estava longe e, mesmo tendo personalidade controladora, tive que confiar. Confiar que ele saberia encontrar algo bom para a gente. Assim foi. Foi na Colômbia que eu recebi a feliz a notícia de que ele tinha encontrado um apartamento e que nosso cadastro tinha sido aprovado. E não dá para descrever o alívio que foi receber essa notícia.  No dia 1º de fevereiro de 2014, a gente se mudou oficialmente para o nosso lar em Nova York. Era um apartamento pequeno, onde fomos muito felizes por dois anos. Um apartamento onde chorei, sorri, aprendi e passei por muitas transformações. Foi quando, oficialmente, a vida na Big Apple iria começar.

Se você quer entender o início da história, clique aqui para ler: 5 anos em Nova York – uma história nunca contada.


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