Blog da Laura Peruchi – Tudo sobre Nova York
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5 anos em Nova York – uma história nunca contada

O mês era abril, o ano,  2013 e o dia, bem,  eu não lembro mais – até porque, às vezes, não dá para guardar na lembrança uma data tão fácil assim, sem saber que ela se tornaria importante em sua linha do tempo. A vida estava ótima: eu morava sozinha em Tubarão, pagava minhas contas e ainda guardava dinheiro – dinheiro esse que vinha de meu trabalho com gerenciamento de redes sociais e assessoria de imprensa. Ouso dizer que eu tinha uma situação bem confortável, mais confortável que alguns outros colegas. A vida amorosa estava bem, com exceção da distância, já que mais de 300 quilômetros me separavam do Thiago, na época, meu namorado. Fazia um ano que ele havia se mudado para Porto Alegre, para trabalhar em uma multinacional de consultoria para desenvolvimento de software. No tal dia em questão, Thiago me ligou, como fazia todas as noites, e me falou:

– Amor, o que tu acha de tirar o teu visto americano?

Àquela altura, Thiago já tinha tirado o dele, pois era requisito da empresa onde trabalhava. A pergunta feita para mim não era tão despretensiosa. Havia um motivo: ele estava começando a trabalhar num projeto de um cliente de Nova York e, consequentemente, a empresa enviaria uma equipe para a cidade no segundo semestre.

– Tira teu visto e, se a viagem surgir, tu podes ficar hospedada comigo, só precisa comprar a passagem.

A proposta era boa, afinal, hospedagem em Nova York, vocês sabem, não é a coisa mais barata do mundo (euzinha não tinha consciência disso àquela altura). Mas, não foi tão fácil assim comprar a ideia. Afinal, o consulado mais perto de mim, naquela época, era em São Paulo e eu, pasmem, muito medrosa, disse que não queria ir sozinha para a capital paulista fazer o procedimento. Foi quando Thiago disse que, então, iria comigo e me acompanharia no processo.

É bom que vocês entendam que, a essa altura, eu já tinha viajado para o exterior – conhecia Londres, Paris, Buenos Aires e Medellin – mas não tinha o visto americano simplesmente porque Estados Unidos nunca esteve no meu topo de prioridades quando o assunto era viagem. Não, eu nunca sonhei em conhecer a Disney, nunca sonhei acordada com Nova York. Sim, eu tinha vontade de morar fora do Brasil, para aprimorar o inglês ou, simplesmente, para ter uma experiência de vida no exterior, mas, quando eu pensava nessa ideia, não pensava em Estados Unidos.

Alguns meses se passaram até termos uma data definida, mas ela chegou. Com o visto em mãos, dia 15 de agosto de 2013, eu embarquei para Nova York. Não antes de ter uma reação alérgica por conta da ansiedade que me tomou nos dias anteriores, já que eu tinha muito conteúdo para deixar pronto para os clientes, somada a uma diarreia – sim, isso mesmo – que me levou a tomar remédio com cachaça ao invés de água. Não, eu não estava tentando encontrar uma função terapêutica para a cachaça. É que meu pai colocou cachaça artesanal numa garrafinha de água – garrafinha essa que minha mãe viu e colocou no carro antes de irmos para o aeroporto, pensando ser o precioso líquido. Tirando esse incidente que faz a gente rir até hoje, tudo correu bem na viagem, e eu cheguei inteira e feliz na Big Apple, num dia de sol e calor. Passei dez dias com o Thiago lá: ficamos hospedados em Jersey City e, enquanto ele trabalhava durante a semana, eu explorava a cidade por aí, sozinha. Fui a museus e lojas, visitei o apartamento da Carrie, sentei em parques e andei de metrô. Estava encantada com a cidade. E, por causa disso, falei para o Thiago:

– Amor, tu poderia encontrar um emprego aqui, né?

Eu e Thiago falávamos muito em morar no exterior, já que a área dele, de tecnologia da informação, é muito promissora. A ideia era que ele tentasse algo a partir do ano seguinte – segundo ele, precisava melhorar mais o inglês (coisa de virginiano). A ideia também era que ele tentasse algo na Europa. Eu falei para vocês que Estados Unidos não estava em nossos planos, né? Mas, tudo mudou depois daquela viagem.

– É muito complicado conseguir um visto de trabalho para os Estados Unidos, amor.

Essa foi a resposta dele. Hoje, entendendo bastante sobre alguns vistos existentes – porque são vários – vejo como a ignorância me beneficiou. Eu não tinha ideia – nenhuma ideia mesmo – de como funcionava o  processo. Eu era apenas uma jovem de 26 anos encantada com Nova York e que sonhava em morar fora – apesar de não ter tido coragem nenhuma para ir para São Paulo sozinha tirar  meu visto americano. Só fiquei imaginando como seria incrível morar ali. Do alto de minha ignorância, sem ter a menor ideia de como funcionava o sistema de imigração, eu só disse:

– Ah, mas não custa tentar, né? Tenta Nova York primeiro. Se não der certo, a gente parte pro plano anterior e tu vê algo na Europa.

Mesmo sabendo dos contratempos envolvidos, Thiago já estava, de alguma maneira, flertando com o mercado americano. Antes de embarcar para Nova York – ele chegou dez dias antes de mim – foi encorajado pelos colegas da empresa a mudar a localização no perfil do LinkedIn. Segundo eles, essa era uma ótima maneira de medir a febre e descobrir se o currículo estava competitivo e se ele tinha chances no exterior. O resultado? Foi bom – afinal, Thiago começou a receber contatos de recrutadores depois de fazer isso. O currículo não era tão ruim como ele pintava – mas ele só levou a “brincadeira” a sério depois da minha sugestão.

Entretanto, foi só depois que voltamos para o Brasil que ele se dedicou a responder às mensagens que recebeu. Mas, nem tudo foi tão fácil e promissor quanto eu imaginava. Quando Thiago explicava que não morava em Nova York – e que esteve na cidade apenas por algumas semanas, a trabalho – vinha a fatídica pergunta: você possui visto de trabalho? A resposta, um óbvio não, já fechava todas as possibilidades de negociação. Nenhum recrutador prosseguia com o processo seletivo. É, de fato, Thiago tinha razão: não era tão simples assim. Contudo, no meio daqueles contatos, uma empresa seguiu com o processo seletivo. Foram muitas entrevistas via Skype, alguns testes, outras conversas. Até que veio o veredicto: eles queriam contratar o Thiago. Compraram uma passagem para ele voar até Nova York e definir detalhes de contrato. O embarque seria num domingo, 29 de setembro. Thiago embarcaria de Porto Alegre e eu, como de praxe, estava visitando meus pais em Meleiro. Naquele domingo em questão, estava na casa de minha avó, quando Thiago me ligou com notícias, digamos, não muito agradáveis. Ele, feliz com tudo que estava acontecendo, mas sabendo o quão chato é o processo de contratação de estrangeiros e emissão de visto, questionou o recrutador num diálogo que foi mais ou menos assim:

– Então, estou curioso, como a empresa vai fazer em relação ao meu visto?

– Visto? Mas você não tem visto de trabalho?

– Não. Eu tenho visto de turismo e negócios.

O recrutador entendeu tudo errado. Ele achou que Thiago tinha o visto de trabalho – e, certamente só por isso deu prosseguimento ao processo de entrevistas. Depois de algumas horas, e-mails trocados e telefonemas, eu recebi mais uma ligação do Thiago, com aquilo que pode ser definido como o legítimo balde de água fria. A empresa achou melhor cancelar as passagens aéreas. O fato de ele não ter um visto de trabalho era um problema para eles. O que é óbvio. Hoje, conhecendo o sistema de imigração, sei que, para uma empresa americana contratar um estrangeiro, não depende apenas dela, mas de leis defasadas e de um limite de vistos emitidos anualmente que beira o ridículo. Resumindo, mesmo que a empresa decidisse patrocinar o visto de trabalho – H1B – Thiago só poderia começar a trabalhar um ano depois, a partir de outubro de 2014. Tudo isso porque as candidaturas para tal visto só são aceitas a partir de 1º de abril – e levam meses para serem processadas, isso se o seu caso for um dos escolhidos, já que se trata de um sistema de loteria – sim, loteria. Mas, àquela altura, eu ainda era ignorante nesse assunto.

Dois dias depois, devidamente orientados pelo escritório de advocacia, a empresa contatou Thiago novamente, falando da possibilidade de um outro visto. O currículo dele, a idade e há quanto tempo ele havia se formado o qualificavam para o visto de trainee, que tinha um processo muito mais simples. Mesmo assim, a empresa disse que estava entrevistando outro candidato, que morava em Nova York, o que seria melhor, por razões óbvias. Essa notícia não me deixou feliz. Havia outra pessoa na jogada, com mais vantagem. Thiago e eu conversamos e já falamos em ele retomar os contatos no LinkedIn e tentar outras empresas. Não criei muitas expectativas sobre o que poderia acontecer, afinal, aquelas passagens canceladas aos 45 do segundo tempo já tinham sido muito para o meu coração de canceriana sonhadora.

Contudo, alguns dias depois, a empresa entrou em contato novamente. O tal candidato havia sido dispensado e eles mostraram interesse em contratar o Thiago e bancar o tal visto de trainee. Depois de 15 dias daquele domingo frustrado, ele embarcou para Nova York para conversar sobre contrato, salário, visto, mudança e todas os aspectos envolvidos. Foi na noite do dia 16 de outubro de 2013 que eu recebi uma ligação dele.

– Amor, deu certo. Vamos morar em Nova York.

Até ali, tudo tinha sido um mix de oba- oba, animação, possibilidade, torcida e expectativa. Depois dali, tinha virado realidade. E eu chorei. Igual a uma criança. O detalhe é que eu não me lembro disso – e só consigo relatar esse fato porque o Thiago lembra e me contou que, naquele dia, ele não entendeu meu choro – só depois foi compreender que aquela era eu. E eu não chorava de alegria ou de emoção – o meu choro era de medo. Eu estava morrendo de medo.

As semanas que se sucederam foram tomadas por muitas coisas a serem organizadas: decidimos casar, tive que conversar com todos os meus clientes (e consegui manter alguns deles), vendi todos os meus móveis – e mais uma parte de minhas roupas, fizemos mais uma visita ao consulado, enfim… Em meio a isso tudo, tive que lidar com um processo difícil de desapego. Não foi fácil escolher aquilo que seria colocado nas duas malas de 32kg a que eu tinha direito. Não foi fácil vender tudo. Não foi fácil ver tudo que eu tinha se resumindo em dois compartimentos pequenos. Eu tinha medo. Eu não sabia se Thiago ia se sair bem no trabalho, por quanto tempo ficaríamos em Nova York. Eu estava dando adeus a uma vida estável e muito boa (lembram que eu falei que minha situação era bem confortável?) e partindo para o desconhecido. Acho que por isso foi tão difícil desapegar… Cheguei ao cúmulo de pesquisar as taxas de frete do Brasil para os EUA para que minha mãe me enviasse o que não coube na mala depois. Obviamente, esses planos foram abortados depois que eu chequei os preços, claro.

E as despedidas foram acontecendo. Chamamos todos os nossos amigos para um bar. Tiramos fotos com cada um deles. Entreguei o apartamento. Voltei para a casa da minha mãe, por algumas semanas. Passou Natal. Passou a noite de ano-novo. Aquela virada, de 2013 para 2014, eu passei com  minhas amigas. Lembro que chorei ao abraçá-las e me despedir. É difícil ser forte. O dia 1º de janeiro de 2014 não foi um dia tão bom. Teve um gostinho amargo de ressaca, de véspera de partida, de despedida. Eu queria segurar o relógio, passei o dia angustiada. Deitei na cama, agoniada. Não conseguia dormir. Na sala, minha mãe ainda assistia TV. Levantei, fui até lá e a abracei. E desabei. Chorei como uma criança. Não lembro exatamente o que falei, nem lembro exatamente o que ela disse para me confortar, mas foi suficiente. Voltei para a cama, calma, tranquila, dormi. No outro dia, embarcamos. A despedida foi tranquila – afinal, eu já tinha esvaziado a angústia na noite anterior. E lá fomos nós, rumo a Nova York.

Na noite do dia 2 de janeiro, ao chegar a Miami, procurando o caminho para a conexão para Nova York, fomos informados do cancelamento do voo, devido a uma nevasca. Depois de uma longa fila para remarcar passagens e despachar as malas, pegamos umas peças de roupas, reservamos um hotel e fomos dormir. Não havia mais nada para se fazer, apenas esperar. Na manhã seguinte, às 7 da manhã, já estávamos no aeroporto, cheios de expectativa para embarcar. Passamos o dia perto do portão de embarque. Fizemos amizade com uma família brasileira, cujo sonho da filha era ver neve em Nova York. Almoçamos. Deitamos no chão. Cobramos posição da cia aérea. E eu senti a primeira frustração da vida no exterior: não conseguia me comunicar direito. Estava indignada com o tratamento que nos foi dado – mas não conseguia fazer nada. Horas se passaram. Anoiteceu e continuamos no aeroporto. A certa altura, na sala de embarque lotada, cheia de pessoas cansadas, indignadas e frustradas, eu sentei no chão. Sentei e chorei, desesperadamente. Lembro que vi um menino me olhando, assustado. Foi ali que aprendi a chorar sem me importar com quem está ao meu redor. No meio das lágrimas, escutei nossos nomes. Embarcamos para Nova York. Nossas malas já tinham ido, mas eu não ia sozinha. Eu levava o medo, a curiosidade e a excitação. Eu não sabia o que ia acontecer, nunca tinha visto neve, só conhecia o frio de Santa Catarina, achava que falava inglês, tinha alguns planos na cabeça, muita curiosidade, nenhum amigo, mil questionamentos, muitos medos. Hoje, cinco anos se passaram desde que chegamos a Nova York. Não, eu não imaginava nem metade das coisas que aconteceram desde então, não esperava encontrar tantas pessoas incríveis – e nem tinha ideia de quanto aquela Laura sentada no meio da sala de embarque iria mudar.

Obrigada, Nova York, por esses cinco anos incríveis. E que os próximos sejam melhores ainda!

PS: Nesta temporada no Brasil, sentada na sala, meu pai falou algo que eu não lembrava. Ele disse que lá em 2004, após a frustração do vestibular para a UFSC, eu comentei que se nada desse certo, eu iria para os Estados Unidos. Eu nem me lembro disso e tenho certeza de que falei da boca para fora ou impulsionada pelo meu desejo de fazer um intercâmbio. Parece que, de alguma forma, o universo me ouviu.


6 Comentários

  1. Que lindo relato, Laura, me emocionei com sua história. Tenho algo parecido, pois nunca imaginei viajar para NY que dirá morar perto. O destino realmente nos surpreende. Sempre acompanho suas postagens no Instagram e você foi toda a base que usei para a minha primeira viagem a Big Apple em janeiro de 2018. Felicidades e sucesso em 2019! 😊♥️

  2. Laura, que relato emocionante! Senti todas emoções descritas. Hoje vivo uma situação parecida com o seu começo, espero que possa contar um final feliz igual ao seu. Obrigada por compartilhar conosco! Abraços.

  3. Realmente, morar no exterior é uma experiência, no início, um pouco assustadora, mas vale muito a pena. Eu morei um tempo na Alemanha e foi uma experiência para minha vida toda. Adoraria viver no exterior novamente. A gente aprende muito, se enriquece e vê que existem vários modos de viver, pessoas com outros hábitos e tudo isso é muito interessante.
    Sucesso para você e que você se sinta cada vez mais em casa em Nova York.

  4. Que relato rico de emoção! Já falei no Instagram que te sigo há pouco mais de 6meses e curto/assisto/vejo tudo o que vc publica! É bom tbem ver as pessoas agradecendo vc pelos roteiros, dicas, etc. Obrigada!!!!
    Desejo a vc muitas alegrias na profissão e na vida! Muitas oportunidades, possibilidades e motivos para comemorar sempre! Posso fazer um pedido? Depois desse dia 1, conta pra gente como foram os demais meses de adaptação, como vc desenvolveu esse projeto (do blog) e achou esse nicho tão concorrido (o de dicas, sugestões e passeios) pra atuar? É claro que seu diferencial é o conteúdo (acho o máximo!) mas imagino que não seja fácil…. Se puder, divide isso com a gente. Vc e sua equipe (tem equipe, né?) dão conta de tanta coisa!… Só temos que agradecer! Sorte, Saúde e Sucesso!

  5. Que linda e encantadora história. Conheci NYC há poucos dias e também não estava nem perto do topo na minha de locais para conhecer, foi a segundo lugar no exterior que conheci e fiquei incrivelmente encantada e com certeza voltarei. Sempre sonhei e morar no exterior assim como você, e me enche de esperança quando leios relatos de que é possível.

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