Blog da Laura Peruchi – Tudo sobre Nova York
NYC

Do Inferno ao Céu: Nova York e os Extremos da Convivência

Sou uma pessoa bem sensível. Bem sensível mesmo. Acredito muito em energia, sabe? Sou diretamente afetada por pessoas com energia ruim, pessoas que estão “pesadas”, que não estão numa vibe legal. Muitas vezes, você sabe quem foi o causador do mal-estar – porém, outras vezes, fica difícil distinguir. E as reações podem ser diferentes. Você se sente mal, fica para baixo, triste e desanimada, ou com muita raiva. E há também aquelas pessoas que decidem que vão ser grosseiras com você. Do nada, sem motivo. Veja bem, não estou falando de ser enfático ou direto ao ponto – coisa que americanos dominam bem e, muitas vezes, nós, brasileiros, interpretamos como grosseria. Estou falando de grosseria de verdade. Já aconteceram inúmeros episódios dos quais fui vítima de grosseria gratuita. Mas eu me lembrei de um episódio específico que me deixou bem chateada.

Era um domingo de verão. Em meio a tantos programas que já fizemos nesta cidade, há vezes em que decidimos repetir alguns para transformar em vídeo para o canal. Foi assim com City Island. Trata-se de uma pequena e charmosa ilha que pertence ao The Bronx e tem casas de arquitetura fofa, vistas lindas, ruas tranquilas que nos transportam para uma cidadezinha do interior e inúmeros restaurantes de frutos do mar. City Island, que tem uma população de pouco mais de quatro mil pessoas, tem mais restaurantes que a minha cidade natal. Depois de hesitarmos um pouco, acabamos decidindo almoçar no mesmo restaurante que tínhamos ido em nossa primeira vez na ilha. Nossa experiência tinha sido tão legal – e a comida era tão boa – que repetir não iria fazer mal algum.

Fizemos nosso pedido: caranguejo, camarões, batata frita e outras coisas (eu disse que a comida era farta? Pois é). Eu nunca tinha comido caranguejo até o dia que fui a City Island. Inclusive, prefiro caranguejo à que lagosta. Mas, isso é assunto para outro dia. Fato é que tanto para comer um quanto outro, você perde a dignidade. Digo isso porque, primeiro, o restaurante já oferece um babador. Sim, você não leu errado, um babador. É porque a sujeira pode ser grande. Depois, com uma espécie de alicate, você quebra o caranguejo e vai comendo a carne que vai saindo. E tem que, literalmente, colocar a mão na massa. Uma experiência e tanto. Não é preciso pensar muito para concluir que suas mãos, ao final dessa maratona gastronômica, ficarão bem sujinhas, né? Depois de terminar de comer, eu estava doida para lavar as mãos e, assim, fui ao banheiro. Havia dois banheiros e uma fila, onde uma senhora já esperava por sua vez. Quando um dos banheiros desocupou, eu então me tornei a primeira da fila. Enquanto isso, mais algumas pessoas chegaram à área para usar o banheiro – uma mulher que aparentava ter uns 50 anos, uma garçonete do restaurante e outra mulher com um bebê. Quando o banheiro desocupou – e seria minha vez – a mulher de 50 anos simplesmente passou na frente. Atordoada – eu realmente fico assim, de cara, com o ser humano algumas vezes – consegui reunir coragem para intervir. Sabe como é, o nervosismo às vezes trava nosso inglês. Quantas discussões eu já pensei: se fosse em português, eu estaria lacrando. Pois é. Tudo que veio à cabeça na hora foi soltar um: “Excuse me?”. Muito brava, a mulher olha para mim, levanta sua mão numa menção de “fique aí onde você está” e diz: NO! Olhei para a moça do meu lado, a garçonete do restaurante e disse: era a minha vez. A garçonete, com semblante de desânimo, também não acreditando no que tinha acontecido, concordou. Meu sangue ferveu. Quando a mulher saiu do banheiro, ela não olhou para a minha cara. Não pediu desculpas – e ainda saiu com o nariz empinado. Não era nenhum tipo de emergência fisiológica – e mesmo que fosse, era só pedir, não é mesmo? Pelo tempo que ela levou no banheiro, pude concluir que foi pura falta de educação mesmo. Gosto de compartilhar esse tipo de coisa para que todo mundo saiba que pessoas ruins existem em todas as partes do mundo – inclusive em Nova York.

Eu queria sair correndo dali. Realmente, a raiva me consumiu. Deu vontade de ir atrás daquela mulher e dizer umas verdades. Ao mesmo tempo, eu me senti impotente e injustiçada. Sim, você pode até estar pensando que era só uma fila do banheiro, mas foi injusto. Não importa o grau, tirar vantagem de uma situação nunca vai ser bonito. Voltei para a mesa – depois, é claro, de finalmente conseguir lavar as minhas mãos – e relatei o ocorrido para meu marido. Pedi para que fôssemos embora dali o mais rápido possível. Eu tremia. Estava me sentindo muito mal. Queria chorar de raiva. Pedimos a conta, pagamos e saímos do restaurante, caminhando pela rua. Até que passamos por uma sorveteria que nos chamou a atenção. City Island estava realmente diferente da primeira vez que a visitamos, no outono do ano passado. No auge do verão, a ilha parecia ter ganhado mais vida – e muito mais opções de coisas para se fazer. Mesmo assim, o lugar ainda mantinha aquela atmosfera de interior. Decidimos, então, comer a nossa sobremesa, já que a ideia era pegar o ônibus de volta na ponta sul da ilha, o que nos impediria de passar por ali. Atraídos pela placa que indicava brownie quentinho com sorvete, fizemos nosso pedido. A sorveteria era bem pequena – as mesas para sentar ficavam na parte externa. Decidimos sentar – não me agrada a ideia de andar enquanto estou tomando sorvete. Gosto de fazer isso com calma, devagar, apreciando o sabor. A mesa que escolhemos tinha quatro cadeiras. Havia um pessoal perto, em pé, que parecia não estar interessado em sentar-se. Começamos a apreciar os nossos sorvetes quando meu marido percebeu um casal de velhinhos atrás de mim. Ele, muito bonzinho, que sempre acaba pensando mais nos outros do que em si mesmo, já ficou preocupado com o fato de os velhinhos estarem em pé. Eu, chateada com a história do banheiro, não estava preocupada. Havia duas cadeiras sobrando. “Eles que se sentem ali, oras. Qual o problema em compartilharmos a mesa? Não vou levantar daqui. Tô de saco cheio desse povo hoje”. Quando terminei de falar isso, percebo que o casal já estava mais perto. O velhinho, então, nos pergunta: vocês se importam se minha esposa se sentar aqui? Claro que não, respondemos. Os dois se sentaram e eu percebi que ela usava uma muleta, pois tinha um pouco de dificuldade de locomoção. Usando chapéu, ela também tomava um sorvete – e não pude deixar de notar que estava toda lambuzada de sorvete. Eu queria avisá-la. Mas, não falei nada. Eu estava muito irritada ainda com a senhora do banheiro. Na realidade, não estava a fim de papo. Estava com raiva do mundo. Só queria tomar meu sorvete em paz.

Mas o casal de velhinhos estava de bom humor. O fato de estarmos quietos não os impediu de puxarem papo. Não me recordo mais qual foi a primeira pergunta, mas eles foram tão doces e agradáveis na conversa, que conseguiram quebrar o gelo – e acabar com o meu mau humor. Logo, já soube que eles eram moradores do The Bronx e sempre visitam City Island. Comentaram que há finais de semana em que o acesso à ilha fica super congestionado – e eu fiquei feliz por ser tão curiosa e descobrir esses cantinhos que ninguém ouviu falar. Também contaram que nasceram e foram criados no The Bronx – verdadeiros novaiorquinos. Suas filhas viviam por perto, em New Jersey. À medida que conversávamos, o papo foi ficando bem gostoso. Comentamos também sobre o velho preconceito que rodeia o The Bronx. A velhinha perguntou de onde éramos – e seu marido elogiou o meu inglês. Uma satisfação me consumiu – nunca acho que meu inglês está bom o bastante e escutar isso de um nativo sempre me deixa feliz. Eles também falaram sobre vários lugares legais para conhecer no The Bronx e eu ia ficando satisfeita à medida que eles citavam os lugares e eu dizia que já conhecia. Contei para eles que eu adorava explorar lugares nada óbvios na cidade – porque, afinal, o roteiro clássico já é bastante conhecido. Meu sorvete acabou até ficando de lado. De fato, sobrei metade do brownie. Poderia ter ficado horas conversando com os dois. Fiquei encantada com a independência deles, de como emanavam bom humor, de como mostravam preocupação um com o outro e como brincavam um com o outro. Todo aquele sentimento ruim que eu estava sentindo em relação àquela pessoa estúpida do restaurante foi embora. Por um momento, nem parecia que estávamos em Nova York – aquele cenário tranquilo, de domingo à tarde, com pessoas tomando sorvete, ruas pacatas e sons de fim de tarde me fez lembrar da minha cidade natal.

Que bom que decidimos tomar o sorvete naquela hora – e não mais tarde. Que bom que eles decidiram sentar-se ali e nem perceberam que eu estava de mal com a vida – ou não se intimidaram com isso. Numa cidade em que todo mundo está sempre correndo para lá e para cá – e, às vezes, sem nem saber ao certo porque se está com pressa – encontrar pessoas assim traz até um alívio. Estou acostumada àquela Nova York do individualismo, onde os vagões de metrô são tomados por pessoas que estão concentradas demais em seu celular, em seu jornal, em seu livro ou em sua soneca e as palavras que trocamos resumem-se a “excuse me” e “sorry” ou uma pergunta relacionada à direção daquele trem. Uma cidade onde a gente pergunta e responde ao “como vai você?” sem na verdade ter muito interesse na resposta que vem em seguida. Por muitas vezes, rola até certo medo da interação com o outro, sabem? Afinal, você nunca sabe quando vai encontrar uma mulher igual àquela do banheiro em City Island. Parece que, entre o arriscar levar uma resposta atravessada e ficar no seu silêncio, a maioria prefere a segunda opção. Entretanto, correr o risco pode ser bom. Nesses acasos do destino, que acontecem por desvios de caminhos ou mudanças de ideia, acabamos cruzando com pessoas que enchem a gente de boas vibrações, seja pelas suas histórias, pelos seus sorrisos ou pelas suas gentilezas.

Gostaria de colocar aquele casal de velhinhos num potinho. Quanto àquela senhora, bem, espero que a vida se encarregue de mostrar para ela que o universo devolve tudo que a gente faz: sejam coisas boas ou ruins. 


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