Blog da Laura Peruchi – Tudo sobre Nova York
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O dia em que meu pai veio para Nova York…

Faz pouco mais de dois meses que eu me despedi da minha mãe no aeroporto. Ela veio passar dez dias aqui comigo, dez dias que foram muito aproveitados e desejados. Não foi fácil me despedir. E não foi fácil pra ela. No meio das lágrimas que a gente não conseguia segurar, ela me fez uma promessa: “vou fazer de tudo pra voltar em outubro e trazer teu pai”. A ideia havia sido colocada na cabeça dela por mim. Depois da viagem pra cá, ela teria três meses de folga por conta de uma licença e eu disse que seria justo ela aproveitar todo esse tempo para fazer mais uma viagem e ainda, de bônus, encontrar comigo e minha irmã. Minha irmã, que também mora fora, em Paris, tinha viagem marcada pra cá em outubro e todos não se reuniam desde 2014 (ainda faltou meu irmão!). E já que eu estava vendendo tal ideia, aproveitei o ensejo para tentar, mais uma vez, convencer meu pai a viajar também.

Agora, vamos inserir um parênteses generoso aqui e explicar porque eu usei o verbo “convencer” numa mesma frase que inclui as palavras Nova York e viagem. Afinal de contas, quem precisa ser convencido a viajar para Nova York? É, Nova York, uma das cidades mais famosas do mundo, que habita o imaginário coletivo de tanta gente – inclusive do meu pai. Nova York, a cidade que dispensa apresentações. Nova York, a cidade que faz milhares de pessoas suspirarem e não pensarem duas vezes quando o assunto é uma viagem pra cá. Pois é, Nova York é tudo isso e mais um pouco e, no caso do meu pai, é a casa de uma das filhas dele. Entretanto, não é fácil arrancar do solo uma árvore que está super enraizada, certo? Requer dedicação, trabalho e paciência. Mas, o mais importante: requer que a desistência nem passe pela sua cabeça. Meu pai nunca havia, sequer, andado de avião.

Desde que eu vim morar em Nova York, eu comecei a fantasiar. Fantasiar as visitas que receberia, os amigos que eu hospedaria e, claro, a vinda da minha família. Acho que é porque eu sou canceriana e cancerianos fantasiam mesmo, afinal, se eu levasse em conta o histórico da minha família, as minhas esperanças deveriam ser zero. Eu morei por sete anos em uma cidade a menos de duas horas dos meus pais e nunca rolou uma visitinha dessas pra curtirmos juntos. Sempre foi mais cômodo pra eles que eu fosse até eles. E não interpretem mal não, eles são pais atenciosos, carinhosos, preocupados, caprichosos, que sempre me receberam no maior estilo tapete vermelho. Mas meu pai sempre foi enraizado. Eu nunca perguntei, mas eu tenho certeza que quando eu vim morar em Nova York ele provavelmente acreditava que a nossa jornada fora seria rápida e que logo voltaríamos pro Brasil. Como vocês podem perceber, quase 6 anos se passaram e, obviamente, ele estava equivocado. Foram muitos convites. Na últimas vez que estive lá, eu fiz uma “palestra” longa pra convencê-lo a viajar. Eu achei que tinha convencido. Não adiantava muito. Quando a gente perguntava se ia rolar uma visita, a resposta era a mesma: “um dia”; ou “vamos ver”. Honestamente, as minhas esperanças estavam se esgotando.

Porém, depois da última viagem da minha mãe, a gente decidiu tomar uma medida mais drástica. Provavelmente, seria a última tentativa. Nós compramos a passagem pra cá e o presenteamos no Dia dos Pais. Eu confesso: estava com medo da reação. Mas, para nossa alegria, o sorriso dele não escondeu a felicidade da surpresa. Em menos de cinco minutos, ele já enumerou as atrações que queria conhecer aqui. De bônus, ainda teria a surpresa que faríamos para a minha irmã, já que decidimos não contar pra ela sobre a vinda deles.

Confesso: durante os dois meses pré-viagem, a minha ansiedade era não só pela surpresa que faríamos para minha irmã, mas também para ver as reações do meu pai ao chegar aqui. Eu estava contando os dias e as horas para mostrar pra ele cada cantinho dessa cidade, para levá-lo para experimentar os mais diversos sabores, para mostrar minha casa, meu bairro, falar da minha vida. Do primeiro ao último dia, foi especial demais observar as reações dele ao avistar o Empire State pela primeira vez, ao ver os olhos encantados com as luzes da Times Square, ao ver a satisfação dele ao provar as comidas dos restaurantes que eu escolhi porque sabia que ele ia gostar. Todas as vezes que eu observava o olhar dele, todas as vezes que eu via ele tirando o celular do bolso para fazer uma foto ou gravar um vídeo, todas as vezes em que ele pediu uma foto para a minha irmã me trouxeram tanta emoção que eu nem sei explicar. “Nova York ficou mais perto” – foi o que ele disse, lá pelos primeiros dias da viagem. A barreira havia sido quebrada. E como foi bom escutar isso!

O que eu mais refleti durante esses dias foi sobre aquelas aquelas frases clichê que eu escutava quando era bem novinha. “É melhor dar do que receber” ou “É melhor presentear do que ganhar presentes”. Eu não entendia essas concepções. Hoje, com a maturidade que adquiri e tudo que vivi até aqui, posso afirmar com toda certeza que eu entendo. E concordo. Meu pai acha que ganhou um presente no Dia dos Pais – mas ele não tem noção do presente que me deu. Por vários momentos, eu olhava pra ele junto com a minha mãe e não acreditava no que os meus olhos viam. Acho que, no fundo, eu desejava isso mas não acreditava o suficiente. Ainda bem que a gente não desistiu. Realmente, fazer aqueles que amamos felizes gera uma felicidade absurda. Uma felicidade com gostinho especial.

Eu decidi compartilhar isso porque durante essa viagem dos meus pais eu recebi diversas mensagens e li diversos comentários de pessoas como eu, que gostariam muito de ter seu pai ou sua mãe pertinho. E eu espero, de verdade, que elas possam, um dia, sentir o que eu senti. E se você que está lendo é uma dessas pessoas ainda presas pela raiz, mesmo correndo o risco de ser clichê, eu digo: não deixe pra depois. Não espere a oportunidade perfeita, não espere o tempo passar, não deixe pro futuro, não invente desculpas. A gente acha que tem controle sobre as coisas, mas a verdade é uma só: nós não temos! A vida é uma só, sabia? Pegue o ônibus, pegue o carro, compre a passagem de trem, de avião. Vá visitar aquela pessoa que mora a duas horas dirigindo ou a dez horas voando. Eu tenho certeza que vai valer a pena. E você não tem ideia de como vai fazer essa pessoa feliz.


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