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Das coisas que observei no Brasil…

Toda vez que eu vou ao Brasil, acabo passando um período longo por lá. Como meu trabalho me permite essa flexibilidade, gosto de fazer a viagem valer à pena. É um voo longo – afinal, depois de desembarcar em São Paulo, ainda vou até Santa Catarina – e seria desperdício ficar pouco tempo. Além disso, o tempo ao lado da nossa família nunca é demais. E, durante esses longos períodos, acabo observando muitas coisas. Não sou uma pessoa detalhista – provavelmente, não vou notar aquele quadro na parede, a cor do sofá, a pintura da casa ou o arranjo de flores. Eu me considero observadora para outras coisas. É óbvio que eu também não nasci assim – foi algo conquistado com a idade e com a maturidade. E são coisas diferentes, né – conheço marmanjos muito imaturos e jovens com a cabeça no lugar. São as experiências que vivemos, os erros que cometemos e os tombos que levamos que nos fazem aprender. Sim, é um clichê – o mais famoso da vida – mas é a mais pura verdade.

Voltando à questão da observação, acabei revisitando muitos lugares nessa minha passagem pelo Brasil. Lugares que me fizeram refletir sobre muitas coisas. É interessante perceber como nossa visão sobre o mundo acaba mudando, né? Sempre ouvia aquela frase que viajar faz a mente se abrir. Que morar fora nos faz aprender muito – e não importa quais sejam as circunstâncias, se a sua vida é confortável ou mais penosa. Uma das experiências que me fez pensar foi uma visita à universidade onde me formei em Jornalismo, em Tubarão. Um professor querido me convidou para conversar com os alunos e contar sobre a minha experiência de trabalho e trajetória profissional. Morei pertinho da universidade durante os quatro anos do curso e revivi várias coisas passando por aquelas ruas no horário de início do turno noturno, vendo o pessoal chegando, os ônibus estacionando… Ao descer o morro de acesso ao próximo bloco, lembrei as caminhadas que eu fazia por ali, pra cá e pra lá, seja para ir ao estágio, seja para ir à biblioteca ou para resolver alguma pendenga. Às vezes, preferia ir de bicicleta. Saía empurrando  a magrela morro acima. Lembro que eu pensava com preguiça naqueles trajetos, pois tudo parecia longe. A universidade parecia grande demais. Uma vida sozinha, aos 18 anos, longe dos pais, parecia assustadora demais. Naquele dia, voltando para a sala de aula – dessa vez para falar e não para escutar – vi como as proporções mudaram com o tempo. Todo aquele lugar não parecia mais tão grande como foi um dia. Não entendam isso como arrogância – foi apenas um ponto de vista que mudou.

Outro lugar que revisitei foi a escola onde fiz o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, em Meleiro. Como parte de um projeto que visa trazer palestras de profissionais para ajudar os alunos na decisão sobre suas carreiras, estive lá também falando sobre a profissão de jornalista. Foram onze anos estudando ali. Onze longos anos pedalando de casa até a escola – eu odiava fazer o trajeto andando. Enquanto esperava a hora para falar, observei tudo ao meu redor. A escola que parecia tão grande uma vez, já não era tão gigantesca assim. Muita coisa mudou, é verdade, mas eu lembro cada cantinho. A quadra de vôlei onde eu errava todos os lances, os jardins onde eu me escondia para chorar ou para contar algum segredo, o pátio onde eu sentava na hora do recreio. Lembro os perrengues, o choro por achar que eu ia mudar o mundo, a rejeição por parte de alguns colegas. Ao ser perguntada por uma aluna sobre a decisão pela faculdade de jornalismo, tentei, em vão, lembrar meus sonhos naquela época. Lembro que, na minha época de estudante, sem internet, sem smartphone e sem redes sociais, tínhamos outros entretenimentos. Como aqueles questionários em que se perguntava de tudo – da cor preferida à profissão almejada (mas todo mundo queria mesmo saber de quem você estava a fim). Apesar de, na época, responder que queria ser modelo e atriz (oi, 1m59cm), acho que, no fundo, eu sabia que era zoeira. Não consegui lembrar quando veio tal decisão – mas sei que o fato de eu ter pais que sempre me incentivaram a ser dedicada e dar o meu melhor contribuiu e muito para chegar onde cheguei. Não sei se eu tinha noção do tamanho do mundo quando eu estava na escola – provavelmente não tinha. Mas acho que nunca deixei o fato de eu morar em uma cidade pequena me intimidar. E que bom, sabe?

Mas é claro que a minha visão era outra quando eu morava em Meleiro. Foi interessante voltar à Criciúma, uma cidade próxima e que eu frequentava bastante, e perceber, também, como o meu ponto de vista era outro. Criciúma era a cidade grande, na minha cabeça. Quantas vezes fui de ônibus para lá, com a minha mãe. Achava o máximo os supermercados, as lojas, o shopping com suas escadas rolantes. Era um mundo totalmente novo para mim. Imaginem, então, o meu encantamento quando rolavam as excursões do colégio para Florianópolis ou Porto Alegre. Eu lembro a primeira vez que comi McDonald’s – foi demais! Aliás, se tinha coisa que me encantava pra caramba eram as tais praças de alimentação de shopping. Engraçado que quando eu conto as minhas origens, muita gente se surpreende e pensa que a mudança para Nova York foi algo drástico – do tipo mudança radical, como se a cidade – uma das metrópoles do mundo – fosse ser too much, fosse me intimidar. Não mesmo. A minha relação com Nova York não foi sempre perfeita – mas digamos que a gente se deu bem de cara e não foi a sua imensidão que me assustou. Tem coisas em cidade pequena que assustam mais.

Falando em cidade pequena, lembrei outra coisa. Acredito que isso não seja algo exclusivo da minha pessoa, mas, toda vez que eu vou para o Brasil, é inevitável imaginar como seria a minha vida se eu voltasse a morar por lá. Sim, essa é uma das perguntas que eu mais respondo – se tenho intenção de voltar – e sim, a minha resposta é sempre a mesma: eu não sei. Eu sei que hoje não tenho intenção alguma de voltar – porém, não estamos no controle de tudo (como gostaríamos) e não sabemos como será o dia de amanhã. É ótimo fazer planos, pensar na próxima viagem, nos próximos passos profissionais – mas a verdade é que não controlamos nada disso. E eu sempre gosto de frisar que eu nunca saí do Brasil para fugir do Brasil. Morar fora – e, lá no começo, a ideia era que isso fosse por um período curto de tempo – sempre esteve nos meus planos. Eu queria morar fora para expandir os meus horizontes, para melhorar o meu inglês, para viver novas aventuras. Acabou que a vida me surpreendeu de um jeito que eu nunca esperei. Pois bem, voltando à reflexão sobre imaginar-se de volta… Cidade pequena tem suas vantagens e desvantagens. A calmaria, a qualidade de vida, o custo de vida baixo, a segurança, o silêncio total à noite. Você conhece todo mundo – e isso pode ser bom ou péssimo. Acabei me deparando com coisas que eu cresci encarando como normais e que hoje não consigo mais conceber. Aquela preocupação com a vida do outro, com o que o outro faz ou deixa de fazer – e que não interfere em nada na minha vida – o julgamento escancarado de algumas atitudes… Precisa mesmo disso? Obviamente, isso não é exclusividade da vida em cidade pequena – afinal de contas, a internet está aí escancarando, também, o pior do ser humano (experimente ler os comentários de qualquer matéria no G1). Porém, acredito que as circunstâncias fazem esse hábito ficar muito mais escrachado, digamos assim.

Como pode nossa visão mudar tanto, não é mesmo? O que era grande não é mais tão grande, o que era importante já não importa mais, alguns valores que pareciam únicos já viraram ultrapassados. Sair da nossa zona de conforto – nem que seja por alguns dias – observar o que acontece ao nosso redor e abrir nossa mente para mudanças é desafiador. Viva a maturidade!?

Esse pôr do sol também foi uma das coisas que eu vi enquanto estava no Brasil. Lindo, né?


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