Dizendo adeus a Nova York…

Antes que vocês tomem um susto: não, não estou indo embora. Nem sei se um dia quero, mas a vida é cheia de surpresas – por isso que acho que “para sempre” e “nunca” são palavras que devemos usar com cuidado nessa vida… O post de hoje é um relato de uma convidada especial, a Clarice. A Clarice é uma leitora do blog que se tornou uma amiga muito querida – e que, daqui a poucas semanas, vai se despedir de Nova York. Nesse pouco tempo que convivemos, trocamos muitas experiências e relatos. Foi num desses nossos encontros que a Cla, que está aqui há dois anos, contou os motivos pelos quais estava indo embora. Sim, Clarice, nascida nos EUA e filha de brasileiros, está voltando para o Brasil e sim, ela está feliz com sua decisão. Eu sempre falo aqui que morar fora não é fácil e achei bacana trazer a perspectiva de outra pessoa pra cá. Ela topou dividir a sua história e eu espero que vocês leiam, curtam e apreciem, sem julgamentos, pois cada um sabe de suas dores e suas delícias…

“Bom, vamos lá! Meu nome é Clarice, tenho 26 anos e minha história com Nova York começa quando eu ainda era criança e meu pai me levava para cidade com ele. Tenho essas memórias bem vivas e nunca imaginei que anos depois, tudo iria se “encaixar”. Nasci e vivi parte da minha vida em uma cidade chamada Bridgeport, em Connecticut, EUA. Quando já tinha nove anos, meus pais decidiram voltar para o Brasil, e é claro, fui junto!

Avançando alguns anos, cursei faculdade de Jornalismo em Vitória (ES) e, nesse meio tempo, passei três meses estudando moda em Nova York. Voltei, trabalhei com produção de TV, assessoria de imprensa e, por último, em um jornal online. E foi neste emprego que as coisas começaram a mudar. Sabe aquela fase que você odeia seu trabalho, arrepende-se da escolha profissional que fez e não consegue enxergar a luz no fim do túnel? Pois bem. No meio dessa confusão toda só tinha uma certeza: queria morar e trabalhar na Big Apple! Comecei a juntar dinheiro mesmo sem saber ao certo quando isso iria acontecer e muito menos como.

Um belo dia, meus chefes me chamam na sala de conferência e.. fui demitida! Na hora, meu mundo caiu. Eu me senti um fracasso. Mas, alguns dias se passaram e repensei tudo que estava acontecendo. Não acredito em acasos e tomei esse tapa com um: “acorda! existe um mundo para você lá fora”. Na faculdade, minhas matérias preferidas eram relacionadas ao marketing, produção e assessoria; sempre gostei de moda e amo tecnologia. Juntei todas essas informações e fiz aquela pesquisa aprofundada na internet. Dois meses depois, no dia 14 de junho de 2014, estava em Nova York. Tinha uma aula paga na especialização de Marketing Digital na Fashion Institute of Technology, um quarto alugado com pessoas que não conhecia e algum dinheiro no banco. Não tinha passagem de volta e nem imaginava o que estava por vir, e na real, ainda não sabia muito bem o que estava fazendo.

Cheguei aqui achando que ia bombar! Currículo cheio de experiências legais, inglês fluente, vontade de aprender etc. Mas a realidade foi outra.. Acredito que isso aconteça em qualquer país para onde você vá sem algo certo. Além de ser só mais um, você tem que começar do zero! Tem que aprender que nesse novo destino você não é ninguém e ninguém sabe quem você é.

Depois de alguns meses, e com o dinheiro acabando, tive que deixar o orgulho de lado e fui trabalhar em restaurante. Sabia que não queria aquilo para minha vida, mas aceitei esse momento de transição e fiz o meu melhor. Durante os quase dois anos de curso, fiz poucas amizades e passei muito tempo sozinha. Sim, a cidade de milhões de habitantes pode ser bem solitária… Então, quando terminei a especialização, resolvi passar uma temporada no Brasil. Precisava dos meus pais e amigos, precisava respirar um pouco… Trabalhei no negócio da família e aprendi muito.. mas tinha uma passagem de volta para Junho de 2016 e o que seria uma viagem a passeio se tornou mais uma estadia na cidade. Àquela altura, eu já sabia o que queria profissionalmente, mas ainda estava descobrindo como aplicar isso na minha vida. Voltei a morar com roommates e a trabalhar em restaurante no início, mas logo encontrei um emprego na minha área. Aí eu me apaixonei ainda mais pela profissão e achei que estava no caminho certo.

Decidi viver essa “nova” experiência de uma forma diferente. Queria me arriscar mais e estava mais aberta as surpresas da vida. Fiz amizades, saí, conheci pessoas bacanas e aproveitei demais. Mas ainda tinha algo que me incomodava, e é até difícil explicar. Em um dado momento, eu me peguei mais empolgada com a idea de me dedicar a um projeto pessoal do que com o emprego que tinha.. e aí comecei a achar estranho. Levei um tempo para perceber tudo que estava acontecendo e quando me dei conta.. meu mundo desabou. Doeu na alma e foi preciso muita paciência e fé para colocar minha cabeça/coração no lugar e avaliar a situação.

Foi assim que decidi voltar para o Brasil. Sim, isso mesmo. Neste momento, tive que avaliar o que é felicidade para mim, aonde sinto paz. Fiz essa escolha pensando única e exclusivamente em mim, no que verdadeiramente faz minha alma vibrar. Mas não tinha data definida e no fundo, ainda não tinha criado total coragem. Por muito tempo me senti culpada. Como assim? Tenho documentação, completei uma especialização na profissão que amo, trabalho em um escritório de moda.. tudo na cidade de um milhão de possibilades, onde muita gente vem buscar o que eu já tinha conquistado e mesmo assim não me sinto bem?

E aí vem a história do “nada é por acaso”, de novo. Com toda essa confusão mental rolando, a empresa que trabalhava estava passando por uma crise e eu fiquei sabendo em Janeiro, mas não podia sair porque estava participando de um projeto e precisava concluí-lo. Comecei a procurar empregos como plano B e nesse meio tempo, também comecei a pesquisar e me dedicar ainda mais ao meu projeto pessoal. Montei toda a metodologia do negócio, coloquei o site no ar e divulguei entre amigos e possíveis clientes. Em Abril, tive que sair da empresa. Poderia continuar procurando por trabalho? Sim. Mas por que continuar adiando e enganando meu coração, a minha intuição? Não fazia sentido. A verdade é que morar em Nova York estava me consumindo demais. E enfim, consegui decidir minha data de volta.

Meu pai sempre me falou que não importava o lugar no mundo que estivesse, os problemas sempre iriam existir. Nunca dei muita bola, mas hoje além disso, acredito que muito dos problemas também estão em nós. Nova York me reeiventou e um dos aprendizados foi: viver com leveza! Tudo pode mudar do dia para noite. E outra: é preciso se orgulhar das suas escolhas, independente de qualquer coisa. Certa vez eu li: “Abrace uma vida difícil. Uma vida com altos e baixos. Uma vida com incertezas, uma vida com surpresas. É a que você vai lembrar, é a que você ama, é a que você compartilha”. E é isso!

Seria um adeus? Acho que nunca vai ser. Sempre vou vir para Nova York quando puder e parte de mim pertence a esse lugar, tem história. Mas preciso desse tempo sem passagem de volta. Trabalhar, viajar e conhecer outros mundos. Outros lugares dentro de mim…”

Obrigada, Clarice, por nos presentear com o seu depoimento! Eu te desejo só alegrias nesta nova etapa da sua vida!

A história da Clarice me fez pensar em muita coisa… e eu trago a reflexão pra cá. Muita gente me escreve dizendo que está cansado, frustrado com sua vida. Lembre-se que morar fora não soluciona problemas. Você deixa de ter alguns problemas, mas terá outros. Não acredite em contos de fada, pois eles não existem. A vida de ninguém muda magicamente ao pisar em terras gringas, tenha sempre isso em mente. Não condicione sua felicidade ao “morar fora” – viva o hoje. Há quem condicione tanto a sua vida a uma mudança dessas que acaba esquecendo de viver o presente…

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