Blog da Laura Peruchi – Tudo sobre Nova York
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Podcast #70 As dores e as alegrias de quem decidiu voltar ao Brasil

No episódio de hoje, a gente fala sobre voltar ao Brasil. Apesar de ser uma decisão/escolha condenada por muita gente, é algo que pode acontecer com os expatriados. Seja por um visto prestes a expirar, seja por um emprego perdido, seja por uma pandemia, pelo fim de um relacionamento, seja pelo simples fato da saudade daquilo que é familiar. Depois de mais de 60 episódios falando da vida no exterior e trazendo histórias de brasileiros no exterior, acho que ficou muito claro que morar fora não tem nada de fácil. Cada história é diferente sim, umas têm mais ou menos desafios, mas não dá pra usar a palavra fácil pra resumir essa jornada. Para falar sobre esse tema, eu recebo minha amiga Analuisa Ferreira, que já participou de vários episódios do podcast e voltou ao Brasil em setembro de 2020. Além disso, esse episódio conta com a participação vários ouvintes, que mandaram suas histórias por áudio e texto. 

LINKS DO EPISÓDIO:

As histórias de quem decidiu voltar

Como mencionei no episódio, não deu para compartilhar todas as histórias que recebi – e mesmo as que foram compartilhadas tiveram que ser resumidas. A seguir, você confere todos os depoimentos na íntegra.

  • Adriana Silva – morou em Lisboa | Portugal por 11 meses

Eu fui fazer doutorado em Portugal em 2019. Minhas aulas começaram em outubro, meu marido foi junto. Chegando lá, tínhamos que esperar ele passar no serviço de estrangeiros e fronteiras para aí então começar a procurar um trabalho na área dele (TI). As vagas para este serviço do governo são extremamente escassas e só conseguimos para o dia 24 de fevereiro de 2020. Ou seja, meu marido ficou de outubro a fevereiro sem poder trabalhar. Assim que passou no SEF, ele conseguiu o visto de trabalho e foi chamado numa empresa. Pois no dia que ia começar a trabalhar, estourou a pandemia e o contrato de trabalho dele foi adiado para abril. Foi nesta hora que entramos num looping que parecia não haver fim – o contrato foi adiado ainda mais 4 vezes. Por fim, estávamos lá somente com minha bolsa de doutorado, com a nossa cachorrinha, tendo que pagar aluguel em euros e trancados em casa ha meses (pois Portugal fechou mesmo). Desta forma, eu falei para ele que ele deveria regressar a Florianópolis, onde ele teria o nome e a experiência para conseguir um trabalho na área dele e eu ficaria em Lisboa resolvendo as coisas do meu primeiro ano de doc até poder voltar para casa e terminar à distância (visto que as aulas estavam online mesmo).

Bom… fomos muuuuito muito julgados! Primeiro pelos pais dele que nunca quiseram que ele tivesse me acompanhado, num primeiro momento. Depois, por todos os conhecidos que não conseguem entender como abrimos mão de morar na Europa legalmente para voltar para Florianópolis (vou te dizer, isso aqui é bem melhor que Lisboa!). Enfim, talvez minha história não seja digna do teu podcast pois as pessoas que lá vão parecem ter assim um final feliz mas vou te dizer que, voltar para Floripa, estar aqui em Floripa é o meu final feliz! Eu não me adaptei a Portugal: não gostava da cultura, dos portugueses, do clima muito ensolarado, da falta de chuva. Tudo tudo me irritava. Só de poder estar aqui, no lugar em que pertenço, é minha alegria. Claro que meus sogros até hoje falam muito por termos ido pra lá, me acusam de ter feito ele gastar dinheiro indo pra lá pra ainda não trabalhar sabe, isso que deixa arrasada. Mas eu só queria estudar, ter outra visão da minha profissão, fazer um doutorado. Eles não entendem isso, tudo se resume ao dinheiro que meu marido gastou pra nos mantermos lá enquanto ele estava esperando começar. Entre nós dois estamos super bem, meu marido NUNCA falou nada sobre ter gastado ou “perdido tempo” – para ele foi uma boa experiência pois agora sabemos como é morar fora do Brasil, sabemos nos virar sem ninguém por perto e temos mais maturidade. Olha, eu prefiro mil vezes a Adri de hoje, que passou por tudo isso do que a Adri de 2019, concursada com trabalho estável numa prefeitura aqui perto de Floripa.. mesmo tendo largado tudo e voltado, acho que valeu hehe.

Mas, apesar de tudo, ainda tenho o desejo de morar fora de novo, quando acabar o doutorado. Quero procurar uma ocupação para mim fora do Brasilzão pois aqui, com esse governo maldito, não acredito que eu vá ter uma colocação na minha área (sou assistente social) visto que pedi exoneração do meu cargo público para ir pra Lisboa… enfim é isso.

  • Andriéli Ranzi – morou em Nova York | EUA por 1 ano e 6 meses como Au Pair

Voltei única e exclusivamente pelo meu relacionamento. Meu namorado me deu todo o suporte pra fazer o intercâmbio, e nós temos uma relação incrível, tive que voltar. Ainda não era a hora de construir raízes lá. Porém, apesar de morar no Brasil a vida toda, ainda não me sinto em casa. Ainda me sinto deslocada e sem propósito. Me sinto todos os dias como um peixe fora d’água. Não tenho o arrependimento de ter voltado, mas com certeza não é aqui que quero ficar. Temos a meta de voltar a Nova York (ou outro lugar dos EUA) juntos. A única insegurança e a dorzinha no peito é de abrir mão da carreira, e de uma vida construída ao redor de estudos e gastos imensos que na realidade não serão usados no exterior. Sou Médica Veterinária, especialista em Dermatologia de Cães e Gatos, e por motivos X, não consigo atuar nos Estados Unidos. A questão que balança todos os dias é: o que é mais importante pra mim? A minha carreira ou o lugar em que vivo? Tenho a skyline de NYC tatuada no braço, me lembrando todos os dias do quanto vale a pena recomeçar.

  • Daniele Araújo – morou em Hickory | Carolina do Norte | EUA por 3 anos e 8 meses

Há alguns dias venho refletindo sobre nosso retorno ao Brasil! São muitas sensações diferentes. Ao mesmo tempo em que quero ficar mais, quero voltar logo para minha cidade natal. É um misto de sentimentos tão grande, difícil de explicar. Às vezes sinto que ainda não curti tudo por aqui, tantas coisas que ainda gostaria de fazer, lugares para conhecer… enfim! Metade de mim quer ir, metade quer ficar e aproveitar mais um pouco. Mas, ao mesmo tempo, sinto uma felicidade enorme em saber que tenho um lugar para voltar. Meu coração se enche de um quentinho sabe? Vou rever meus pais, meu irmão, meus sobrinhos, minha cunhada, minha família que há exatamente um ano não vejo, devido à pandemia.

Minha experiência aqui foi ótima, é claro que com muitos desafios, mas pensando em tudo isso, vejo que valeu a pena. Aquela Dani de quase quatro anos atrás já não existe mais. Quanta coisa eu aprendi, quanta coisa mudou! E os desafios como mãe? Ah, todo dia um aprendizado diferente! Mas me sinto tão feliz, não pensava que fosse conseguir. Muitas pessoas me acharam doida por deixar um emprego bom e abdicar da profissão pra vir pra cá, mas eu estava disposta e sabia que não seria fácil. Outras disseram “vai mesmo e nunca mais volte, o Brasil está perdido, eu daria tudo pra ir morar na América!” Só quem vem pra cá pra morar sabe sobre tudo o que realmente é acordar todo dia e ir à luta. Eu sempre costumo dizer que muita gente romantiza a vida de morar fora. Tivemos muitos dias alegres, com certeza, mas também choramos, gritamos, temos vontade de desistir às vezes.

Agora no final de janeiro estamos retornando ao Brasil, ansiedade chega a palpitar! Mas é tão bom! Recomeçar tudo de novo. Agora outras prioridades estão por vir, nossa filha vai pra faculdade, eu tentarei voltar ao que já fazia antes e o marido continuará trabalhando na mesma empresa. Quando viemos para cá, já sabíamos sobre quando seria a volta. E agora o momento está chegando. Muita felicidade! E se estamos sendo julgados em voltar? Claro, com certeza! Muita gente acha um absurdo, que se tivesse a mesma oportunidade que tivemos, nunca retornaria. Enfim, nós também gostaríamos de ficar mais tempo, se minha filha fosse mais nova, com certeza ficaríamos aqui mais uns anos, mas o momento agora é outro. Hoje temos outras necessidades, outras prioridades e a maioria das pessoas não entende. Se saímos de nosso país somos julgamos, e depois quando voltamos também. Não temo minha volta ao Brasil, pode não ser o melhor lugar do mundo, mas aqui também não é. Acredito muito que o melhor lugar pra se viver bem é onde nós nos sentimos bem. E como disse antes, ah, é tão bom ter pra onde voltar! Eu amo morar nos Estados Unidos, sou grata a tudo que vivi aqui, tudo que aprendi, mas também amo o meu Brasil e estou mega feliz em poder voltar!

  • Dayane Montanheiro Koscak – morou em Dublin | Irlanda por 2 anos

Minha história se resume a mais uma na multidão, que larga carreira em multinacional, família, amigos e vai tentar a sorte em outro país. Em 2016 tomei a difícil decisão de deixar tudo pra trás e seguir um caminho novo. Sempre foi um sonho morar fora, desde os meus 15 anos de idade, eu dizia que moraria fora, alçaria novos e longos voos e encheria meus pais de orgulho. Então, com 29 anos, em 2016 subi no avião com malas recheadas de sonhos, expectativas, fé, garra e vontade de fazer dar certo.

Estudei inglês, trabalhei em “subemprego” que chamam aqui no Brasil, mas que lá fora é visto com bons olhos e até pagam muito bem por sinal. Consegui uma vaga na minha área em Dublin, então trabalhei com marketing e vendas e fui construindo aos poucos a minha vidinha, sozinha, contanto com poucos amigos que fiz lá. Não procurava relacionamento sério, pois havia sofrido muito com um relacionamento longo que terminou em traição por parte da outra pessoa, então me blindei e não queria mais me magoar. Com um ano e meio de Irlanda, conheci um rapaz em um aplicativo para falar inglês com outras nacionalidades, ele entrou dizendo ser croata e eu entrei como brasileira.

Cerca de um mês e meio conversando, contando da vida, jogando conversa fora, notei que ele era brasileiro pela forma como ria nas mensagens, com um “hahaha” que, diga-se de passagem, é bem abrasileirado. cCom 3 meses de conversa, madrugadas acordados, decidimos nos encontrar em um Pub. Ele já sabia um pouco sobre minha história, minha dor, e eu sabia da dele, que também havia sofrido muita decepção em um relacionamento longo, os dois tinham seus corações quebrados.

Desde aquele primeiro encontro, não nos desgrudamos mais. Descobri que ele tinha dupla nacionalidade, era brasileiro e croata, e no Brasil residia em Sorocaba, interior de São Paulo, bem próximo de onde eu residia, aproximadamente 1h30 de distância. O tempo passou, tivemos 3 meses de relacionamento e ele teria que vir embora pro Brasil, o trabalho aguardava ele, ele tinha um contrato pré-determinado que deveria cumprir (fazer o curso na Irlanda e retornar ao Brasil). E aí começamos a sofrer novamente por saber que nossa história chegaria ao fim. Éramos muito parecidos, tínhamos os mesmos gostos pra bebidas, culinária, viagens, destinos, planos, e os dois tinha o grande sonho de constituir uma família. Faltando 10 dias para ele ir embora, decidimos fazer algumas viagens para nos despedirmos, então escolhemos Escócia, Malta, Amsterdam e Paris. Paris foi o último destino e portanto o mais dolorido, pois em 5 dias ele voltaria pro Brasil. Quando chegamos em Paris e avistei a Torre Eiffel, ele me chamou, eu virei para trás e lá estava ele com uma caixinha, com uma aliança, me pedindo pra ficar com ele pra vida toda, voltar pro Brasil e constituirmos uma família. Naquele momento, choramos, rimos, a emoção tomou conta e eu aceitei – ali vi que ele me amava e me queria por perto. Quando retornamos à Irlanda, no outro dia ele iria embora pro Brasil. O desespero no meu coração foi gigante, nunca mais tinha pensado na hipótese de voltar pro meu país, voltaria apenas no fim de ano para passar uns dias com a família, mas retornaria à Dublin, afinal, ali era meu mundinho agora. Durante nosso relacionamento, tivemos muitas discussões sobre o assunto porque eu dizia que não voltaria, e ele falava que não ia ficar em Dublin, nunca tínhamos chegado a um consenso.

Quando ele partiu, em outubro de 2017, eu havia prometido que ia dar um jeito de adiantar as passagens que eu tinha em dezembro, e ir antes de uma vez por todas. Mas por dentro meu coração gritava que não queria ir, eu estava muito feliz em Dublin. Uma semana dele no Brasil, a saudade era enorme, ele fazia já parte do meu mundo, chorávamos de saudade e decidi largar tudo novamente e voltar, sem emprego, sem avisar família, sem nada, voltei pro Brasil pelo amor da minha vida. Chegamos a ficar quase um mês longe, até que cheguei no nosso Brasil. Estar com ele era tudo o que queria, mas eu queria estar com ele na Irlanda.

Não me encaixava no Brasil, não aceitava as coisas aqui, sofri muito, entrei em depressão, síndrome do pânico, não saía do meu quarto o dia todo, tudo apagado, eu quieta no meu canto. Essa não era mais minha realidade, eu não consegui aceitar que o povo brasileiro aceitasse sofrer tanto, passar por tanta corrupção, tanto roubo, seja em mercados, shoppings, dia a dia, nas contas, na compra de um carro, celular, roupa, enfim, em tudo eu discordava. Foram anos de terapia, ainda faço, até hoje, pra aceitar o retorno.

Sofri muito no começo, cheguei a tomar 18 remédios, 3 vezes ao dia, a síndrome do regresso/retorno acabou comigo. Alguns dias eu pensava em largar tudo, pegar uma mala e voltar pra Irlanda, sonhava comigo lá, era o dia todo falando com as pessoas de lá, meus amigos era os de lá, minha família era aquela que formei morando numa casa, com culturas diferentes. Era tudo diferente. Aquela vida que eu tinha no Brasil não me cabia mais, eu olhava meus armários deixados aqui no Brasil e aquelas roupas eu não usava mais, os saltos, as maquiagens, o luxo, roupas de marca, eu não queria mais aquilo! A menina que usava tênis rasgado e roupa manchada de limpar 17 privadas por dia na Irlanda não cabia mais na menina que usava saltos altos e camisas caras pra trabalhar no Brasil, aquela não era eu.

Meu foco para não enlouquecer aqui  era o nosso casamento e a reforma da nossa casa, apostei todas as fichas na nossa vida a dois, eu tinha que me refazer! Casamos em junho de 2019 e eu me mudei novamente com ele, para morar em Sorocaba. Larguei mais uma vez a família, os poucos amigos, o emprego, para seguir a vida com o amor da minha vida. Ainda vivemos em Sorocaba, e este ano, depois de tanto insistir, de tanto chorar, vamos em junho para a Irlanda passar 30 dias, pra eu pelo menos matar a saudade, poder reviver minha vida um pouquinho. Até hoje choro de saudades, me dói, sonho quase todas as noites, não superei, acho que jamais vou superar. Larguei tudo por um grande amor. Valeu a pena? sim, mas metade de mim ficou na Irlanda, e essa metade jamais vou ter de volta. Se eu pudesse me dividir em duas partes, uma estaria aqui, com ele, o amor da minha vida, e a outra metade estaria lá, na vidinha simples mas muito boa.

A terapia tem me ajudado muito, ainda faço, ainda estou na síndrome do regresso, hoje lutando muito na fase de aceitação. Pra mim ainda é muito difícil aceitar a realidade cruel do Brasil. Ainda não faço compras no mercado, compro somente o que for muito necessário num shopping, não uso mais roupas de marcas caras, nem saltos. Tenho aprendido aos poucos a viver por aqui, tenho tentado aceitar.

Sou muito julgada, muito. Afinal, não consigo me sentir bem aqui, e o que mais ouço é ” volta pra lá então” , “não tá feliz? vai embora”, de amigos, familiares, mas ninguém está aqui dentro do meu coração para saber tudo que passa aqui dentro. Não foi fácil me abster de tudo muitas vezes desde 2017 por um amor. As vezes acho que esqueci de mim, do que eu queria, do que eu sonhava, pra viver um amor, mas aí me cobro, porque o maior sonho sempre foi constituir uma familia. Então meu coração segue sempre dividido. Não me arrependo. Mas não consigo estar 100% feliz aqui. Sempre faltará a parte da Dayane da Irlanda, aquela mulher que aprendeu a viver com pouco, dormindo num colchão no chão, limpando privadas, conhecendo culturas diferentes, andando 18km por dia a pé com um tênis furado, aquela que vivia com tão pouco, mas tinha muito!

Ele tem feito o que pode pra me ver feliz, a culpa nunca foi dele, sempre foi eu, minhas decisões, e tento não culpá-lo de nada. Ele faz o que pode pra me ver bem e por isso esta me dando essa viagem esse ano para eu matar a saudade de lá, conto os dias, as horas, durmo e acordo pensando no dia que estarei lá, no meu país gelado, verde, repleto de paz, calmaria, justiça, sem gente passando fome, necessidades, de um povo feliz, não escravizado pelo trabalho, com um governo justo, com igualdade.

Ah se Deus me desse a oportunidade de morar lá mais uma vez e poder construir minha tão sonhada familia lá. Eu enfim seria muito feliz!

  • Maíra Ribeiro – morou em Toronto | Canadá por 2 anos e meio

Vim com meu marido e duas filhas principalmente para termos uma experiência fora, morarmos por um tempo em um outro país, mas para isso eu estudei fotografia em um college aqui, por dois anos. Na verdade ainda estamos em Toronto e retornaremos no próximo mês (fevereiro). Viemos para termos uma experiência e ao longo do caminho as coisas foram mudando: meu marido queria muito conseguir o visto de permanência residente e ficar aqui, depois ele foi desistindo da ideia. Eu no começo não gostava muito, depois me encantei e queria ficar de qualquer forma. Minha filha mais velha não gostou muito, a caçula amou e quer voltar no futuro, rsss! No meio disso tudo, por mais que eu quisesse ficar, a COVID atrapalhou demais a minha parte de trabalho, já que sou fotógrafa e me vi impossibilitada de trabalhar. Como eu era quem mais “puxava o barco” para ficarmos, acabei me desestimulando e desistindo dessa tarefa. Percebi que voltar traria mais conforto para o meu marido, que tem um trabalho muito bom no Brasil e que queria voltar para lá. Vi também que eu teria que me exigir uma garra que estava ficando além das minhas possibilidades, e percebi que o Brasil tem muitas coisas boas para o meu trabalho e minha vida. No fim das contas, percebo que foi uma experiência maravilhosa ter vindo, mas no momento, para a minha família, o retorno será o que nos trará mais paz.

  • Paulo Nobuo – morou em Hiroshima, Komaki e Suzuka | Japão por 5 anos

Fui para fazer um pé de meia e voltei após 5 anos de trabalho no Japão para estudar. Fui em 1991 e retornei em 1995. Como tinha apenas o antigo ginásio ou ensino fundamental, fiz supletivo e prestei vestibular para o curso de direito na UEL aqui em Londrina, minha terra natal. Passei e após terminar a faculdade fiz concurso público e passei para Procurador do município de Londrina em 2003. Faz quase 18 anos. Foi uma experiência fantástica! Retornei em 2005 a turismo ao Japão com meu pai e ficamos 30 dias lá!

  • Viviane – morou em Washington DC | Estados Unidos por um ano

Estávamos cansados da violência no Brasil e surgiu uma oportunidade de um trabalho para o meu marido, porém um trabalho temporário. Voltamos simplesmente porque ficamos sem visto. Acabou a data, voltamos. Foi muito ruim a readaptação, principalmente com a atenção com a violência (fiquei mais neurótica e mais tensa com isso, sinto mais medo de andar nas ruas do que antes de ter saído do país), os preços, as facilidades que agora não temos mais na nossa casa (aquecimento, ar condicionado central no prédio). Hoje, cada ida ao supermercado é uma lágrima que escorre, com os preços absurdos. Não nos arrependemos de ter ido e nem de ter voltado. Cada coisa que passamos na vida tem um porquê e tínhamos que passar por esta experiência que foi incrível e que nos mudou como pessoa e principalmente como casal, nos tornou ainda mais unidos. Fomos julgados quando tomamos a decisão de ir, “como assim largar tudo para viver com prazo de validade fora do país, como vai ser quando voltar”, e também fomos julgados quando voltamos, que somos burros, que deveríamos ter continuado por lá mesmo ilegais, mas não vou negar que o julgamento maior foi na ida.

Com o retorno eu consegui um emprego muuuuito melhor do que eu tinha antes de ir, ganhando 3 vezes o meu último salário. Quando voltei e comecei a enviar currículos muitas empresas me chamaram para entrevistas, principalmente grandes empresas, e isso nunca tinha acontecido comigo. Só o fato de ter colocado a experiência de morar fora no currículo abriu muitas portas. Porém, menos de 3 meses de volta já estávamos pensando em mudar novamente, dessa vez para outro país e com um projeto para ir e não voltar mais. No momento, o foco do planejamento está no Canadá, mas já estudamos as possibilidades da Irlanda, Portugal ou Itália.

  • Camila Rezende Dantas – morou em Nova York | Estados Unidos por um ano

Primeiro acho que preciso explicar (resumidamente) como fui para em NYC. Eu tinha o sonho de conhecer os EUA e, quando entrei na faculdade, me deparei com colegas que já tinham tido a experiência de viajar para o exterior e falavam inglês. Assim, coloquei na minha cabeça que no meu terceiro ano de faculdade eu iria. Para que meu plano desse certo, eu me matriculei num curso comunitário de inglês e mandei vídeos meus jogando vôlei. Uma treinadora viu um dos meus vídeos e acabei por conseguir uma bolsa integral para jogar e estudar no Queens College. Fui eleita MVP do time e Second team na East Coast Conference de 2009. Mas decidi voltar para o Brasil, meus motivos foram vários. Mas o principal é que eu via a dificuldade que era para os estrangeiros conseguirem vistos de trabalho (e sempre tem o drama da renovação) e o nível de cobrança para manter o meu desempenho alto era insuportável e eu não aguentava mais jogar lesionada. As pessoas sempre me chamam de maluca por voltado de NYC, mas não sabem a que custo você se mantém lá. Além disso, eu estava cursando o primeiro ano de faculdade novamente e demoraria mais 3 para me formar, sendo que já estava no terceiro ano de USP aqui no Brasil com um ensino bem mais completo do que eu tinha lá. Enfim, até hoje me pergunto como seria, mas não me arrependo porque vivi coisas muito incríveis desde então, incluindo uma especialização em vôlei na Alemanha em 2015 que só foi possível, pois eu tinha adquirido fluência em inglês!

  • Tania – fez um “circuito” – NYC – São Paulo – Seattle – NYC

A primeira vez, fui transferida pelo escritório que trabalhava pra fazer mestrado e trabalhar em Nova York. A segunda foi porque meu marido e eu decidimos casar e tentar os EUA mais uma vez. O motivo do primeiro retorno a SP foi uma questão de carreira + visto. Meu mestrado tinha acabado e meu projeto também. Meu chefe na época me queria de volta e fazia mais sentido profissionalmente falando. Mas meu namorado tinha acabado de receber uma proposta de emprego no Brasil (a ideia inicial sempre foi voltarmos juntos) e outra em Seattle. Super incentivei ele a ir para Seattle porque era a melhor proposta. Então, além de adaptação da volta, tive também a dificuldade do namoro a distância Seattle – SP. Foi muito difícil voltar à vida normal de São Paulo. Mas o interessante é que também sofri muito na adaptação de volta, quando decidimos casar e eu me mudei pra Seattle. Estava finalmente me entendendo de volta ao Brasil mas acabamos tomando a decisão de tentar se estabelecer nos EUA de novo. Eu sempre menciono que fui julgada duplamente, o que só prova que as pessoas nunca estão satisfeitas com a vida dos outros. Na primeira vez, quando voltei ao Brasil as pessoas me julgaram falando “por que você não casou e foi com ele pra Seattle?” Quando mudei do Brasil pra Seattle as pessoas falavam “por que você vai largar tudo pra ir com ele?”. Tem q ser muito forte e saber o que quer nessas situações. Eu estava muito tranquila das duas decisões. Mas ainda assim muito difícil. Depois, por último, mudamos de Seattle pra NYC quando eu consegui uma oportunidade de emprego aqui (foi a vez dele de largar por mim). Essa adaptação, de todas, foi a mais tranquila. Mas ainda assim, NYC não é pros fracos, né!

  • Francisco – morou em Katowice | Polônia por 1 ano

O motivo do meu retorno foi a minha demissão em março, no auge da pandemia. Ainda tentei ficar, mas estava muito difícil conseguir um sponsor nessa época, e tinha apenas 3 meses para conseguir uma nova colocação. Por esse motivo, decidimos, meio que forçados, voltar para o Brasil. O sentimento de ter que voltar foi o de tristeza, foi difícil. Fizemos muitos bons amigos, eu e minha família (esposa e filho) estávamos muito bem adaptados. Além de toda essa carga emocional de estar buscando emprego, praticamente sem reserva de emergência, ainda tinha a barreira de não poder sair facilmente do país. Tivemos que fazer a jornada de ônibus até a Alemanha, e só de lá pegamos um voo para o Brasil, mas confesso que nem tudo foi tristeza. Tivemos a sorte de já ter um local para ficar. Poucos dias depois que chegamos, conseguimos as coisas de casa. O momento que foi mais marcante para mim, foi quando caiu a ficha do meu filho (5 anos), de que não havíamos vindo de férias. Tínhamos voltado de vez. Ele sentiu bastante. Não tenho arrependimento nenhum de tudo o que aconteceu e das decisões que tomamos, isso foi algo que nos uniu bastante, que me fez crescer profissionalmente, e que deu ao meu filho uma bagagem cultural enorme, algo que com a minha situação financeira e posição social não poderia dar. Em nenhum momento fomos julgados, fomos muito bem acolhidos de volta. Temos essa qualidade de deixar amigos por onde passamos. Todos nós acolheram de braços abertos. E hoje a situação atual é de uma nova aventura. Mudei de volta para a Europa, desta vez para Portugal, e a família se reencontra na primavera.

  • Thaynne – Morou em Londres e Bath | Inglaterra e Porto | Portugal por 2 anos

Sempre muito difícil a vida lá fora, e quando consegui me estabilizar a saudade gritava dentro de mim. Não aguentava a vida de trabalhar, trabalhar e trabalhar sem lazer. Voltei direto na pandemia, o que me fez ficar quieta aqui no Brasil. Sinto falta da vida agitada e da correria por money. Hoje, se voltar a morar fora pensaria um pouco mais no lazer e tirar dias de folgas para não pesar tanto. E pensaria também em um lugar mais fácil de visitar o Brasil.

  • Taís Fiorentin – morou na Philadelphia | EUA por 4 anos e 7 meses

Eu fui para os EUA para fazer parte do meu doutorado. Inicialmente, seria por 10 meses, mas, após o término do período, recebi uma oferta de emprego e decidi ficar mais. Fui ficando, ficando, ficando…por quase 5 anos. Eu obtive muito crescimento profissional e a minha carreira praticamente começou nos Estados Unidos. Fiz graduação seguida de doutorado e comecei a trabalhar já no exterior como pesquisadora, então continuar lá seria o caminho natural e mais fácil. Acontece que eu nunca me senti inteira – mesmo me dedicando 100% à minha vida no exterior, nunca tive a sensação de pertencimento. Recebi uma oferta de Green Card e, com a chegada da pandemia, decidi recusar e voltar ao Brasil. Eu saí de um país de primeiro mundo, com emprego “estável”, possibilidade de cidadania e voltei sem nada. Não me arrependo. Não me sinto completa também no Brasil, e, sinceramente, não acho que vou me sentir em nenhum lugar. Fui e continuo sendo extremamente julgada inclusive por pessoas muito próximas quando digo que não vou mais voltar pra lá, ninguém entende, eu sigo trabalhando e me convencendo de que nao precisa fazer sentido pra ninguém, só pra mim. Hoje eu me sinto bastante insegura sobre minha situação profissional, e, por outro lado, muito feliz de estar perto de quem eu amo. Decidi voltar porque não consegui criar laços nos EUA, nem com pessoas, nem com o país, não fazia mais sentido viver em um lugar só para trabalhar, acho que a vida é muito mais do que isso.

  • Thais de Oliveira – morou em  Michigan | EUA por 5 anos

Viemos por um contrato de expatriação da empresa do meu marido e nosso contrato de expatriação não será renovado por uma decisão global da empresa de não ter mais expatriados na área em que meu marido atua. Quando soubemos da notícia ficamos devastados. Foram alguns dias antes da pandemia que fomos informados. E, claro, tudo piorou devido a este cenário. Esperávamos que eles renovassem por mais 2 anos (ja tivemos uma renovação) e que depois disso pudéssemos conseguir o contrato local. Fizemos muitas decisões embasadas nisso, inclusive de termos o segundo filho aqui. Tenho o Pedro de 8 e a Sophia de 3. O plano seria eu começar a trabalhar este ano em algo mais tranquilo (lojas talvez) para eu ter mais contato com a língua e no ano que vem procurar algo na minha área. Sou formada em Economia e trabalhei 12 anos no Brasil no setor bancário. Tivemos praticamente um ano para tentar outras alternativas, digerir a situação e ainda nos encontramos um pouco preocupados. Sei que o mais difícil foi vir para cá, mas nos adaptamos muito bem, achamos um lugar que nos sentimos mais livres, mais seguros, mais qualidade de vida. E claro, visto que estamos ainda numa pandemia, somos gratos por estar voltando ao Brasil com emprego e nos braços da família. Confiantes de que tudo dará certo, gratos por cada segundo vivido aqui, gratos pelos momentos bons e de aprendizado.
 
Difícil expressar meus sentimentos com essa volta. Horas feliz que estarei com a minha família, horas preocupada com o futuro. A vida aqui não é fácil como todo mundo imagina. Foi uma escolha mas de que tenho muita certeza que fizemos a coisas certa. Nos uniu muito mais como família, como casal e abriu muito a nossa cabeça e dos nossos filhos, principalmente do meu mais velho. Isso mudou a vida dele completamente. Eu como mulher abri mão de muita coisa pela minha família, mas sou muito grata de poder esta aqui e cuidando deles. Hoje o que consigo falar é que ainda espero voltar.
 

Depoimentos em áudio

  • Rodolfo

 

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