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7 coisas que você precisa saber antes de morar fora

Vocês sabem que, além das dicas de Nova York, eu gosto muito de dividir com vocês as verdades sobre morar fora. Esse assunto já foi tema de vários posts e vídeos aqui no blog e é algo que sempre me inspira a escrever. A gente tem essa ideia de que morar fora é sempre melhor – afinal, a grama do vizinho é sempre mais verde, não é – e acho que quando se trata de Nova York essa ideia é ainda mais romantizada. Faz três anos que eu moro aqui – e, por enquanto, não temos planos de voltar ao Brasil. Sim, sou muito feliz morando aqui – e não, isso não significa que a minha vida seja perfeita e sem problemas. Morar fora soluciona, sim, alguns problemas, mas não zera essa equação. Os problemas são outros. Hoje, resolvi falar sobre 7 coisas bem importantes sobre morar fora, que têm muito a ver com o estilo de vida e com o processo de adaptação aqui. Esses fatos são baseados na minha experiência e pode ser que não se apliquem a todas as pessoas. Mas, de qualquer forma, achei válido compartilhar….

1. O idioma sempre vai ser uma barreira – não importa quantos cursos de inglês eu faça – a minha língua materna sempre vai ser o português. E aqui nem estou entrando apenas no mérito do sotaque, que sempre vai “entregar” o fato de que sou estrangeira – em um cidade como Nova York, isso não é um problema sempre. Falo de vocabulário mesmo. Eu me considero fluente, mas infelizmente a gente não está preparado 100% para todas as situações que a vida te apresenta. No momento, estou fazendo um tratamento médico e cada vez que vou ao consultório, meu inglês é colocado à prova. São termos que não entendo – e que estou aprendendo – são palavras que preciso encontrar para me expressar. Confesso: é frustrante. Principalmente quando o seu interlocutor não entende o que você quer dizer. E não importa se um dia eu me torne uma cidadã americana – eu vou ser sempre brasileira. E não estou falando que me acho menor por isso, muito pelo contrário, tenho muito orgulho das minhas origens.

2. Você precisa se reinventar e começar do zero – tenho muitas amigas que vieram morar aqui pelo mesmo motivo que eu – o marido foi contratado ou transferido pra cá. Todas nós tínhamos carreiras no Brasil: advogada, jornalista, engenheira química, farmacêutica. Ao contrário do que muita gente pensa, o mercado de trabalho aqui é acirrado. Já parou para pensar quantas pessoas estão aqui em busca dos seus sonhos? Quantas pessoas, de todos os cantos do mundo, estão na busca do seu lugar ao sol? E já parou para pensar que nem sempre é só chegar e começar a exercer sua carreira? Profissões como advogadas e outras da área da saúde exigem mais formação e provas para que você se enquadre aos requisitos de trabalho aqui. Muitas vezes, é preciso recomeçar do zero. Conheço pessoas que estão trabalhando em áreas completamente diferentes, já outras que estão há algum tempo estudando e se dedicando para tentar se adequar às exigências. E você sabia que nem todas as categorias de visto de trabalho dão, automaticamente, autorização de trabalho para o esposo/esposa? Sim, o visto de trabalho, o mais desejado por 90% das pessoas, não dá autorização de trabalho para o cônjuge. Não me pergunte o motivo, essa é a pergunta que deve pipocar na cabeça de todas as mulheres (sim, a grande maioria dos vistos H1B emitidos são para homens) que estão aqui e ficam impossibilitadas de trabalhar. Para quem tem planos de carreira e ambição, é bem frustrante. Isso que estamos falando dos trabalhos formais. Não dá pra ignorar o fato de que há milhares de pessoas que vêm para os EUA “tentar a vida”.  Gente que tinha emprego “bacana” no seu país de origem e vem pra cá trabalhar como garçom, com faxina ou cuidando de crianças. Nada menos digno, porque nenhum trabalho te faz melhor que o outro, né? Mas e você: estaria sujeito a qualquer tipo de trabalho?

3. Perda de identidade – isso tem muito a ver com o tópico anterior. No Brasil, você tinha a sua carreira, a sua profissão, a sua identidade. Eu era a Laura, naural de Meleiro, que estudou na Unisul, filha do Donato e da Meri, que trabalhava com mídias sociais, que tinha um blog sobre moda e beleza. Aqui, as suas referências não servem mais para nada. É como se você zerasse a sua vida e precisasse reconstruir sua identidade. Agora, eu sou a Laura, brasileira, que mora aqui desde 2014, blogueira que escreve sobre Nova York, criadora de um aplicativo, casada. Óbvio que não é só isso que resume quem eu sou, mas muita coisa mudou. Tudo que eu vivi até vir morar em Nova York contribuiu e muito para a pessoa que me tornei, mas são referências internas. Ninguém conhece a minha cidade – aliás, pouca gente conhece mais que Rio ou São Paulo quando o assunto é Brasil. Meu currículo, apesar de ser interessante para a cidade onde eu morava, não é tão bom assim para concorrer num mercado como o de Nova York. Apesar de eu estar morando legalmente aqui, não sou livre para fazer o que quero, pois a imigração limita bastante o que uma pessoa pode fazer aqui, em termos burocráticos.

4. Desconstrua tudo – e quando eu falo tudo, falo até do gosto por comida. Nada contra quem mora fora e assina a Globo Internacional – quem sou eu pra dar pitaco na programação de televisão da casa dos outros? Mas, ao mesmo tempo que você não quer perder a novela, permita-se assistir outras coisas. Tem que acompanhar o noticiário, saber o que está acontecendo no lugar onde você vive. Também é preciso ter em mente que os hábitos são outros. Falando em Nova York, não esqueça que espaço é artigo de luxo e os apartamentos são pequenos, que ter carro não é algo viável, que o inverno é bem diferente do Brasil (e dura meses), que você vai precisar levar a sua roupa para lavar… E que talvez você não vá encontrar mamão papaya no mercado, mas em compensação tem morangos e framboesa por um preço muito mais em conta. Que talvez você não encontre aquele leite condensado em todos os mercados, mas que aqui tem outras milhares de coisas que não existem no Brasil. Corte o cordão umbilical. “Ah, mas no Brasil não era assim”. Exato, mas, lembre-se: você não está mais no Brasil. Não adianta reclamar que a cerveja não é gelada o suficiente, ou que o café é fraco demais, ou que aqui não dá para parcelar as compras. Desconstruir conceitos e adaptar-se à nova rotina é muito mais fácil do que ficar lutando contra coisas que você não vai conseguir mudar.

5. Conheça e viva a cultura – o último domingo foi Páscoa e, dias antes, ao me despedir de alguém que eu não veria até a semana seguinte, a pessoa me desejou Feliz Páscoa. Agradeci e fiz o mesmo, mas depois fiquei pensando em como a vida para Nova York mudou nosso jeito de encarar datas comemorativas. Natal continua sendo sagrado para mim, mas a Páscoa sempre passou em branco. Confesso que nunca foi minha data favorita e talvez por isso nunca fizemos nada especial. E também porque aqui não é algo tão forte como no Brasil. Em compensação, a gente fica animado para o Halloween e já faz planos para o Thanksgiving. Acho muito gostoso incorporar novas celebrações na nossa vida, faz a gente se sentir mais “incluído” no lugar onde vivemos.

6. O mito do barato – as pessoas ficam muito animadas para fazer compras em Nova York, porque os preços de muitos produtos costumam ser mais em conta quando comparados com os praticados no Brasil. Mas a vida das pessoas aqui não se resume em comprar como Becky Bloom e Carrie Bradshaw. Falando especificamente da Big Apple – e eu sempre bato nessa tecla – é bom lembrar que a vida aqui é muito cara. Sim, é barato comprar roupas, maquiagem e eletrônicos, mas aluguel, impostos, mercado e plano de saúde não são nada baratos. Serviços, então, nem se fala. Esqueça empregada doméstica e salão de beleza toda semana – isso nunca foi um problema para mim, pois nunca tive esse padrão de vida no Brasil, mas sei que é realidade para muita gente. Nem todo mundo consegue morar sozinho – muito menos num lugar charmoso do West Village – ninguém tem vista pro Empire State, não dá para sair para tomar um drink todos os dias. Aliás, não dá nem para você fazer o louco consumista, porque é muito provável que você não tenha espaço suficiente para guardar tudo o que compra.

7. Os benefícios são outros e o ritmo de trabalho também –  almoço com duração de uma hora e meia? 30 dias de férias? Emendar todos os feriados? Folga todos os fins de semana? Só no Brasil. O ritmo de trabalho aqui é bem diferente. Férias e licença-maternidade, por exemplo, dependem da política de cada empresa. Há empresas que dão até 28 dias de férias por ano, há outras que só liberam duas semanas. Nem todo feriado significa folga – alguns só beneficiam escolas mesmo. Sábado e domingo são dias de trabalho para muitas pessoas. E sabe o ditado “tempo é dinheiro”?. Pois é, aqui tempo vale muito mais dinheiro. A maioria das pessoas ganha por hora. Não trabalha, não recebe. Simples. Ah, e o almoço não é o mesmo ritual do Brasil. É difícil as pessoas pararem por muito tempo para comerem alguma coisa. Isso sem contar toda a burocracia dos planos de saúde. Não queiram saber os custos de consultas médicas e exames aqui. Sem contar o que me parece ser um pouco caso com prevenção a doenças. Sei que o SUS tem muitos problemas no Brasil, mas na cidade onde eu vivia, ele supria bastante as minhas necessidades. Aqui, não existe SUS.

Espero que tenham gostado do post! Morar fora é uma experiência ótima, enriquecedora, mas isso não significa que seja perfeita. Por aqui, vocês nunca me verão romantizando isso…

Minha experiência na New York Fashion week: convites, bastidores e uma análise

Vou ter que ser repetitiva e começar esse post com a legenda que usei para postar a minha foto no Instagram na sexta-feira passada, quando minha experiência na New York Fashion Week começou: se me falassem anos atrás que um dia eu estaria conferindo a NYFW de perto, acho que eu não acreditaria. Eu, blogueira e jornalista que nunca foi famosa no Brasil e nunca conseguiu um convite para a São Paulo Fashion Week, agora estava conferindo uma das mais importantes semanas de moda do mundo de perto. Hoje, uma semana depois – e com o evento oficialmente encerrado – há vários sentimentos e pensamentos que tomam conta da minha mente. Quando eu saí de casa sexta passada, com um frio de -11 graus, eu me questionei: será que devo fazer um vlog dos meus dias? Rapidamente, cheguei à conclusão que não. Afinal, o resultado seria um compilado de imagens de desfiles e acredito que isso não interessaria a vocês no geral. Na era das redes sociais, onde desfiles são transmitidos ao vivo pelo Instagram, Snapchat e outras plataformas, prefiro deixar a parte de análise de moda para os entendidos. Bastou eu conferir dois desfiles para um turbilhão de pensamentos dominar a minha mente. No fim do dia, já tinha uma ideia: depois do evento acabar, faria um post com as minhas impressões a respeito – mas não sobre tendências e looks legais, e sim sobre comportamento e como tudo funciona.

Vou começar pelo assunto que sei que gera muita curiosidade nas pessoas: os convites. A New York Fashion Week acontece duas vezes por ano – em fevereiro e em setembro, gera mais de U$2 milhões em atividade econômica para Nova York e atrai mais de 1 milhão de visitantes. Durante a semana, vários designers/marcas, incluindo nomes famosos como Calvin Klein, Michael Kors e Kate Spade, apresentam suas coleções. Uma coisa que é preciso saber é que cada desfile é um evento único (e acontecem em locações diferentes). Não existe um passe livre para a NYFW, existem os convites para cada desfile. Esses convites são disputados – quanto mais prestígio tem a marca, mais difícil é conseguir um convite ou mais importante você precisa ser para estar lá. O público dos desfiles pode ser definido em imprensa, blogueiros e compradores. As assessorias de imprensa das marcas são as responsáveis por selecionar os convidados. E, obviamente, como a organização de um desfile gera um investimento alto, a marca quer ter resultados à altura, ou seja, muita exposição na mídia. Ou seja, quem está lá tem que ter números, engajamento. E como muitas coisas na vida, tudo gira em torno de networking, contatos.  Se você tem um blog e quer conferir os desfiles, tem que correr atrás: descubra as assessorias de imprensa, apresente seu trabalho, faça contatos. Aqui nos Estados Unidos também existem muitas agências de influencers, que conectam os blogueiros com as marcas.

Ao todo, eu devo ter recebido uns 12 convites para desfiles e conseguir ir a 7 deles. Alguns eu recebi com bastante antecedência, outros só chegaram menos de uma semana antes do desfile. Conforme a lista de compromissos ia aumentando, aumentava também a minha felicidade. Como eu mencionei no início do post, é muito louco poder conferir de perto algo que antes você só via pelas redes sociais. Meu sentimento era de euforia, que se misturava à ansiedade. A New York Fashion Week traz para a cidade celebridades e blogueiras famosas do mundo todo, que contam com estilistas renomados enviando looks para esse pessoal todo vestir. Bem, eu não estou nesse patamar, não fui convidada para os desfiles mais famosos, mas é inegável a insegurança que tudo isso gerou em mim. O que vestir? Desde que me mudei para Nova York,  meu estilo mudou muito. Eu passei a apostar em peças mais funcionais, roupas que eu pudesse usar no dia a dia, que fossem versáteis e práticas. Meu closet inclui pouquíssimas peças que resultariam em looks “montados” ou super elaborados. Pesquisei algumas imagens na internet e fui anotando as minhas opções  de looks. Eu ia me virar com o que eu tinha. Mas e o medo de me sentir excluída?

No meu primeiro dia, não posso negar que fiquei feliz da vida com os comentários que recebi a respeito do meu casaco de pelo (fake, ok?) da Forever 21. Sabe quando você se apaixona por uma peça? Foi assim com esse casaco. E quando as pessoas começaram a falar tão bem dele, fiquei ainda mais confiante e com a certeza de que tinha feito um dos meus melhores investimentos. Aquela ansiedade que eu estava sentindo foi passando à medida que fui analisando todas as pessoas que chegavam para os desfiles. Percebi que, literalmente, você vê de tudo. E me senti bem. Minha auto-confiança foi aumentando à medida que eu observava as pessoas. Eu não queria vestir algo que não tinha a ver comigo. Eu via algumas meninas usando roupas muito “diferentonas”, com penteados, maquiagens super produzidas, gente de perna de fora num frio de -11, gente trocando de roupa na esquina do local do desfile, gente que parecia desconfortável com o que estava usando… Aí eu parei e pensei: a troco de quê? Qual o foco da NYFW? Os designers e as coleções apresentadas ou o público? Não se pode negar a influência do street style para a moda – há muitas meninas com estilos incríveis e looks incríveis, que trazem inspiração e ideias para o dia a dia. Mas eu vi produções que me pareceram ter sido pensadas com o único propósito de causar. Não quero julgar ninguém, mas acredito que ser fiel ao seu estilo traz muito mais personalidade e auto-confiança. Se cada um faz o que bem entender, eu decidi ser fiel ao meu estilo e vestir o que tinha a ver comigo e que me fizesse sentir bem. Nos desfiles seguintes, não saí com preocupacão excessiva nenhum dia. Tanto que não queria saber de passar frio nos trajetos entre estações de metrô (sim, vida real! hahaha) e locações e usei, sim, o meu casaco de inverno de capuz e nada fashion.

Agora, voltando ao evento em si, quando as luzes se apagavam, anunciando que o desfile estava prestes a começar, eu me lembrava como era incrível estar ali. Fiz fotos e fiz snaps, mas não deixei essa preocupação excessiva com as redes sociais atrapalhar a minha experiência. Eu não presenciei isso, mas tenho uma amiga que participa da Fashion Week há mais tempo e me contou sobre meninas que estavam mais preocupadas com a foto perfeita do que viver o momento…  Eu queria observar e perceber o que estava acontecendo à minha volta, ver cada look. Amei a modernidade dos looks de Hakkan Akkaya, fiquei apaixonada pelos vestidos maravilhosos de Leanne Marshall e Sherri Hill e ainda senti muito orgulho de ser brasileira ao conferir o desfile incrível de Layana Aguilar e a apresentação da Farm. Mas olha, é tudo muito rápido, sabem? Admiro todo o trabalho dos designers e das equipes que se desdobram para dar conta desses eventos que duram minutos…

Depois de muitos dias de correria, fico feliz por ter tido essa oportunidade tão única. É incrível o encantamento que a NYFW causa nas pessoas né? E por saber que tanta gente gostaria de ter essa chance, eu me sentia mais grata ainda. Realmente, nunca imaginei que um dia iria viver isso e fico mais feliz ainda por Nova York ter me surpreendido de mais um jeito. Foi maravilhoso fazer parte de um evento tão famoso, conferir desfiles, fazer contatos e, o mais importante: não deixar a auto-estima cair no meio de um lugar onde aparência conta muito…

Morar fora e aquele aperto no peito…

Dia 3 de janeiro eu completei três anos morando em Nova York. “Mas já?”. Já. Eu sempre quis morar fora e lembro que sempre pensava que um ano não seria suficiente. Um ano seria muito pouco para morar fora. Agora já completei três anos e ainda sinto que ainda tenho tanta, mas tanta coisa para fazer… A vida passa rápido demais, o tempo passa rápido demais. O ano acabou de começar – mas quer apostar que num piscar de olhos estaremos na Páscoa e em mais outro piscar de olhos será metade do ano? Pois é.

Neste momento, estou no Brasil. Vim passar as festas de fim de ano com a família. Fazia um ano que não vinha pra cá – e foi o período mais longo que fiquei sem voltar à terrinha. Nestes três anos morando fora, foram muitas viagens para o sul do mundo (sou de Santa Catarina) e assim como não muda o cheirinho de casa e a comida de mãe, também não muda a angústia que aperta o meu peito toda vez que o dia de embarcar de volta vai se aproximando. A gente até conversa com aquelas amigas que moram fora há mais tempo que você pra ver se há uma luz no fim do túnel. “Com o tempo, vai ficando mais fácil”, a gente pensa. Mas aí as amigas te informam que não – não importa se faz 5 ou 10 anos – despedir-se da família nunca vai ser tarefa fácil. Para ajudar, parece que o relógio decide andar ainda mais rápido nos dias que antecedem o embarque e aí haja coração mesmo para aguentar o aperto. Aperta tanto que chega uma hora que não tem jeito mesmo – tem que colocar pra fora, seja chorando escondida ou na sala de espera do aeroporto.

Eu sei que a essa altura do campeonato pelo menos meia dúzia de vocês já está pensando que “você tem sorte” ou “menina, você tá voltando para Nova York” ou “aproveita porque o Brasil tá de mal a pior”. Realmente, eu me sinto muito privilegiada pela oportunidade que eu tenho de morar nos Estados Unidos, numa cidade tão maravilhosa como Nova York. Esse caminho que percorri até aqui me trouxe muitas coisas boas: uma mudança no foco do blog que só me proporcionou bons resultados, uma rede de networking maravilhosa e outros tantos projetos e trabalhos que desenvolvi ao longo desses anos – sem contar todas as experiências que pude viver, lugares que pude conhecer e até mesmo os pratos que provei. Morar fora abre sua cabeça para tantas coisas e sua visão de mundo expande de um jeito incrível – acho que todo mundo deveria ter essa chance, nem que fosse por um mês na vida.

Já falei inúmeras vezes que, como tudo na vida, morar fora também tem o seu lado ruim. Você provavelmente já ouviu várias histórias de sucesso de estrangeiros no exterior, mas não dá para ignorar tudo o que se passa para alcançar o sucesso – e nem todo mundo que mora fora atinge seus objetivos. A barreira da língua, o preconceito, a xenofobia, as diferenças culturais – morar fora é vencer pequenas batalhas todos os dias. Desde conseguir atender ao interfone e entender tudo que a pessoa está falando até conseguir se comunicar com o médico e explicar o que você está sentindo, descobrir o equivalente daquele produto no supermercado ou até mesmo ajudar alguém que está perdido no metrô. Todas essas situações seriam muito normais e corriqueiras se eu estivesse no Brasil – mas não quando se está num país diferente. A verdade é que assim como a vida fora é muito intensa é preciso lembrar que a vida no lugar onde você morava continua. Pessoas morrem, pessoas casam, comemoram aniversários, celebram suas formaturas. E você vai perder vários desses momentos. Claro que você também vai criar outras situações – vai fazer amigo secreto com as pessoas que cruzaram seu caminho e também vai receber esses amigos na sua casa para celebrar o Dia de Ação de Graças. Você vai começar cultivar cada vez mais aquele sentimento de estar em casa. Mas vai sempre faltar um pedacinho na sua vida.

O ano de 2016 foi bem cruel com o mundo. A gente viu tanta coisa ruim acontecer, tantos episódios de intolerância, tantas vidas que se foram num piscar de olhos. Por isso que eu valorizo tanto esses momentos no Brasil, perto da minha família – e dos amigos que deixei aqui. E olha que as passagens para esta época estavam caríssimas. Só que, em certas coisas, a gente não deve economizar. Nós temos o costume de achar que estamos com tudo sob controle. Planejamos a nossa semana, aquela viagem para daqui a dois meses, já pensamos sobre o próximo Natal, combinamos um almoço no feriadão, imaginamos a vida daqui a 10 anos. Mas a verdade é que a gente não controla nada. Acho que é bom para o ser humano pensar que está no controle – afinal, também não dá pra viver prevendo o futuro, né – porém, é bom ter um dedinho do pé no chão. Às vezes, eu acordo no meio da noite e penso nos meus pais e dói, dói bastante saber que não estamos perto. Dói saber que a distância é grande. Obviamente que tudo é amenizado com a tecnologia, mas claro que o Facebook, o Skype e o WhatsApp não substituem abraços. Eu tenho uma relação com meus pais – principalmente com minha mãe – que talvez não seja igual a de muita gente. E aí a gente vive esses dias no Brasil de uma forma tão intensa – como era antes de sair do Brasil – que a cada despedida é um mini-luto, como se você estivesse revivendo aquela sensação de ir embora pela primeira vez.

Se o aperto passa? Passa, claro. Mas morar fora é viver eternamente com essa dualidade de sentimentos… É viver intensamente numa cidade maravilhosa – mas sempre cultivando aquela saudade das pessoas que não estão pertinho. É aproveitar ao máximo o seu tempo no Brasil – e mantendo aquele amor pela sua casa que está longe. Eu tento me equilibrar assim…

As coisas chatinhas sobre o inverno em Nova York

O inverno começa oficialmente amanhã – mas só para marcar a data, porque as temperaturas baixas já chegaram em Nova York faz um tempo – inclusive até neve tivemos (e eu nunca tinha visto nevar assim em dezembro desde que vim morar aqui).  Talvez, pelo meu histórico de posts e vídeos aqui no blog falando sobre o inverno, vocês achem que eu não curto a estação. Vou me redimir: eu gosto, sim, do inverno em Nova York – mas o principal problema é a duração dele. O frio começa em outubro e vai até março/abril. Eu já falei de algumas verdades sobre o inverno na cidade neste post aqui e também neste vídeo aqui, mas hoje eu resolvi listar coisas chatinhas, rotineiras, da estação mais gelada do ano.

– O vento – o inverno em Nova York é bem rigoroso – e as temperaturas negativas sempre marcam presença. Eu nem passo mais frio hoje em dia, porque uso e abuso de roupas térmicas e também investi em casacos bons – já dei dicas de como se vestir aqui. Mas o problema é  vento… ah, o vento. O vento em Nova York é algo que dói até a alma. Não é sempre que está ventando enlouquecidamente, mas quando venta, sai de baixo. Parece que aquele ar gelado vai arrancar o pouco que sobra de pele exposta – no caso, o seu rostinho lindo. Eu acho que eu não reclamaria tanto do inverno se não ventasse.

– O nariz escorrendo – eu sei que você fez cara de nojinho, mas não adianta, precisamos falar a verdade. Você sai de casa toda bonitinha no inverno mas você dá dez passos e já está fungando. Não tem como, o nariz começa a sofrer e aí, meu bem, é um tal de pega lenço aqui, assoa o nariz ali. E esqueça a máxima de que “é feio assoar o nariz em público”. Em Nova York, tá todo mundo no mesmo barco – o que quer dizer que todo mundo assoa o nariz onde bem entender. E isso também quer dizer que você vai ouvir de tudo: dos mais discretos aos mais escandalosos.

– A saga de usar o celular na rua – você está lá andando toda quentinha, aí de repente precisa atender o telefone, checar o endereço de algum lugar, mandar uma mensagem. Ou você está toda linda na sua viagem, querendo fazer mil fotos e 3459595 snaps. Aí, precisa tirar a luva. “Vai ser rapidinho, você pensa”. Até que não sente mais seus dedos. Ok, ok, você pode resolvar isso com uma luva touch, mas é que eu ainda não criei vergonha na cara – e também porque amo as minhas luvinhas.

Choquinhos – com o aquecimento super forte nos locais fechados, acontece um fenômeno um tanto engraçado durante o inverno aqui – e que causa certos sustos no começo. Ao encostar em objetos metálicos – e até mesmo em pessoas – sentimos pequenos choques. O choque acontece quando produzimos energia eletrostática ao fazer qualquer movimento de atrito. Esta energia viaja pelas gotículas de água presentes no ar. O que acontece é que quando a temperatura cai, a humidade relativa do ar também cai bastante, principalmente por causa dos ambientes aquecidos. Isso significa menos gotículas de água no ar, e aí a energia não tem como viajar e se acumula, e aí, quando encostamos em algum condutor, como o metal ou uma pessoa, a descarga elétrica acontece e levamos choque! (explicação do blog Virei Canadense). Confesso que esses choques já me fizeram levar vários sustos.

– O metrô lotado – por mais frio que faça em Nova York, uma certeza você pode ter: você só sente o frio na rua mesmo, pois todos os lugares são aquecidos (alguns até demais). Uma coisa bem chatinha do inverno aqui é pegar o metrô lotado. Isso porque os trens são bem aquecidos e a primeira coisa que você vai fazer ao entrar é tirar o seu casacão e a sua touca. Mas e quando o metrô tá tão lotado que você não tem nem espaço para tirar o casaco? É tenso, meus amigos, é tenso… reze pra sua pressão não cair (ou tire o casaco antes).

– Os cabelos nos casacos – esse post é pessoal, então, eu compartilho as minhas experiências. Quando o inverno chega, eu vivo para manter os meus casacos limpos – leia-se: sem milhões de cabelos grudados. Fica o meu apelo para que todo mundo faça o mesmo, porque eu fico pra morrer quando tô numa fila ou tô no metrô e vejo aqueles casacos cheios de cabelos pendurados. A minha vontade é pedir licença e catar um por um. Sério, fico muito agoniada, hahahahahaha.

– A pele ressecada – no inverno, nossa pele sempre requer cuidados mais especiais ainda, certo? Eu tenho pele oleosa e nunca sofri com ressecamento no Brasil. Mas todo inverno em Nova York é uma saga. O aquecimento em casa é forte e aí a pele sofre pra caramba. A área do nariz fica avermelhada e a pele chega a descamar. O jeito é usar o umidificador dia e noite, para amenizar o problema. E até eu descobrir que tinha que usar o umidificador, meu rosto sofreu muito, senhor! Não sabia mais o que passar. Somado a isso, ainda temos as temperaturas congelantes na rua que, somadas ao vento, podem fazer o estrago no seu rosto (principalmente nos seus lábios). Aqui tem um vídeo com dicas de produtos para manter na bolsa.

– A neve acumulada – eu acho a neve uma coisa linda, fico toda boba quando neva a primeira vez, adoro ver os parques todos branquinhos e também adoro que a temperatura fica ok quando neva (ok significa zero ou 1 grau positivo). Mas só até aí. Andar nas calçadas e atravessar as ruas se torna uma tarefa muito complicada, porque a neve começa a derretar e vira, então, uma lama bem nojenta. Desculpa, gente, não tem como achar essa parte divertida.

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Sobre ser grata

O fim de ano vai chegando e, com ele, sempre rola aquele sentimento de nostalgia, de análise e de reflexão. É incrível como datas especiais mexem conosco, né? É óbvio que a gente também fica sentimental no nosso aniversário ou no Dia das Mães, por exemplo, mas acho que as festas de fim de ano sempre acabam tendo um significado mais forte para as pessoas. São ciclos se fechando e, por mais que estejamos exaustos, esse período acaba trazendo aquele sentimento de renovação, de que é possível tentar novamente, fazer de outro jeito… Natal sempre foi a minha data preferida – e tenho a impressão de que vai ser por muito tempo. Porém, vocês devem imaginar, morar no exterior te expõe a uma outra cultura, a um outro idioma e, caso você se permita, pode ser muito bacana conhecer mais a respeito dos costumes do local onde você vive,

A essa altura, vocês já devem imaginar onde eu queria chegar: no Thanksgiving, comemorado hoje por aqui. É engraçado e curioso: eu consigo enxergar a minha evolução aqui analisando como eu passei esse feriado a cada ano. Lembro que em 2014, a primeira vez, não fizemos nada de especial. Foi um dia de folga, de dormir até tarde e de descansar. Comemoração zero. No outro dia, encaramos a Black Friday – a famosa sexta de promoções (e que talvez seja o motivo de muita gente saber sobre o Thanksgiving). Ano passado, celebramos na casa de uma amiga querida demais – que infelizmente voltou para o Brasil. Comemos peru – mas também comemos um risoto – bebemos, conversamos e tivemos uma dia informal e muito gostoso. Agora, escrevo este post exatamente 1:20 da manhã – tudo porque passei o dia em função da data, já que amanhã é a nossa vez de receber nossos amigos em nossa casa,  num almoço que nós estamos oferecendo. Apesar de a gente ter se programado há um tempinho – incluindo uma pastinha de receitas no Pinterest – algumas coisas, como tudo na vida, não saem como o planejado. O protagonista da festa – o peru – foi o que mais nos deu dor de cabeça. Encomendamos com antecedência – porque eu não queria me arriscar assando uma ave como essa, achei melhor pegar pronto e só fazer os acompanhamentos. Mas hoje, vejam bem, só hoje, véspera da data, totalmente por acaso (porque tive que alterar a reserva) eu descobri que o peru vinha cru! Pensem numa pessoa desesperada! E não me entendam mal, eu amo cozinhar e, particularmente, acho que sou boa cozinheira, hehe, mas um peru? Eita. Além do fato de ter que me preocupar em como preparar e assar o bendito, ainda tinha vários detalhes pra finalizar, umas compras pra fazer muitas coisas pra adiantar para amanhã.

A minha primeira reação poderia ter sido reclamar, ficar frustrada, achar ruim. Mas, no fim das contas, eu e Thiago nos divertimos tanto preparando que eu vou lembrar dessa data sempre com carinho. E hoje, andando pra lá e pra cá – e já pensando neste texto para o blog – eu me peguei pensando no significado do Thanksgiving. Que nada mais é do que ser grato. E enquanto eu procurava um termômetro pro peru e mais um monte de coisas, eu decidi pensar em como eu sou grata. Que bom que eu tenho uma casa bacana para receber as pessoas, que bom que eu tenho amigos queridos que vão estar conosco amanhã, que bom que temos condições de organizar um almoço desse. E isso porque eu estou falando só do dia de hoje…

Afinal de contas, acho que tenho muito mais motivos para ser grata. Eu moro numa das cidades mais legais do mundo, uma cidade que me ensinou tanto e me inspira todos os dias e fez eu me reinventar. Uma cidade onde todo mundo pode ser o que quiser, uma cidade que é literalmente a esquina do mundo, que atrai gente de todas as idades, culturas, religiões e nacionalidades. Uma cidade que me faz rir, refletir, chorar, sentir saudades. Uma cidade que hoje, pela primeira vez em três anos, fez eu dizer pra todo mundo: Happy Thanksgiving! Essa mesma cidade é minha pauta de todos os dias e que, mesmo longe do Brasil, fez eu me conectar com tanta gente de lá que tem o sonho de visitar essa cidade. E essas mesmas pessoas, talvez não sabendo, praticam esse sentimento de gratidão todos os dias, quando elas me agradecem uma dica, quando relatam para mim o que fizeram na cidade, quando me mostram a promoção que aproveitaram…

Esse ano de 2016 marcou muita coisa. Eu me sinto muito mais segura e confiante e as minhas metas e sonhos estão cada vez mais claros na minha mente – mesmo que às vezes surja um medo, um receio, uma ameaça, porque, afinal, não sou perfeita. Eu também acho que sou um ser humano muito mais evoluído do que eu era há quatro anos em relação a várias causas. O que me faz hoje questionar, problematizar e ser muito mais segura das minhas convicções e do que eu espero para o mundo. E eu sou grata por isso, por eu ter aprendido tanto e por conseguir levantar a cabeça e começar a enxergar o que é realmente um problema e o que não é. Também sou grata por ter uma família que, mesmo de longe, me dá amor, apoio e torce por mim e nunca negarem fazer mais do que está ao alcance deles para ajudar, em qualquer coisa. E por ter amigas, que, perto ou longe, nunca deixaram de acreditar na nossa amizade. E um marido que é um super companheiro.

Poderia ficar aqui até amanhã listando todos os motivos pelos quais eu sou grata, mas eu queria mesmo era deixar essa mensagem para vocês. Vai parecer clichê, vai, mas a verdade é que é muito mais fácil reclamar do que enxergar o outro lado das coisas. Já que essa data tem um significado tão especial – e vocês que me acompanham tem um sentimento de carinho por Nova York – façam esse exercício hoje e pensem nisso: você é grato a que?

Happy Thanksgiving!