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A senhorinha, o homem dos pés descalços, os franceses: meus vizinhos em Nova York

Na semana passada, escrevi um texto sobre o anonimato em Nova York e comentei a respeito do outro lado sobre essa história de ninguém te conhecer aqui. De como perdemos nossas referências, de como não somos mais quem éramos. Curiosamente, na mesma semana, um fato interessante aconteceu – e esse fato me  fez  pensar sobre os meus vizinhos e sobre o que sei sobre eles.

Vejam bem, eu moro em um prédio antigo de Nova York, conhecido como prewar, ou seja, um prédio que foi construído entre 1900-1939. Não temos elevador, mas temos muito espaço. Não temos mais uma empresa grande administrando o prédio, como acontecia onde morávamos antes – e, por mais incrível que pareça, temos mais atenção aqui do que lá. Nunca me esqueço do dia em que sumiram encomendas de mais de 10 apartamentos no nosso prédio anterior e a administração do prédio fez o quê? Nada. Não mostrou nem solidariedade, nem preocupação. “Se você encomendou algo, é sua responsabilidade”. Um por um, ninguém por ninguém.

E também temos menos vizinhos. Se no antigo prédio, uma construção da década de 80, havia cerca de 60 apartamentos, no atual, são apenas 11. Três no térreo e dois em cada andar seguinte, até o sexto. Sim, não há elevador e, sim, há pessoas morando no sexto andar. Novaiorquinos são super acostumados com essa vida de escadas. Acho que eu não me acostumaria, visto que já perdia o fôlego – e a animação com qualquer que fosse a oferta imperdível – ao visitar apartamentos em andares mais altos. Voltando aos vizinhos, eu não tinha contato com quase ninguém no prédio anterior. Levou quase dois anos para conhecermos o rosto do rapaz que morava no apartamento colado ao nosso. Lembro que a gente sempre o escutava  chegando, à noite, e as portas eram tão próximas que eu sempre levava um susto, achando que alguém estava tentando entrar na nossa casa. Tinha também uma senhora muito simpática que morava no andar de baixo. Na primeira vez que eu a encontrei no elevador, ela foi super querida e atenciosa e perguntou em qual apartamento eu morava. Qual não foi a minha surpresa quando ela, minutos depois, subiu, bateu a minha porta e disse: “apareça para tomar um café qualquer hora”. Agradeci, encontrei-a mais algumas  vezes e acabei nunca indo tomar o tal café. Também tinha uma vizinha super escandalosa no andar de cima. Atire a primeira calcinha ou cueca quem nunca lidou com um vizinho assim… hahahahaha!

Agora, voltando ao prédio atual… demorou uns três meses para eu conhecer algum vizinho. Rolou na situação mais inusitada possível. Tinha ido para a academia e deixei o celular em casa. Ao chegar, descabelada e suada, tentei abrir a porta de meu apartamento e quem disse que a desgraçada abria? “O que eu vou fazer agora?” Não tinha como ligar para  meu marido, nem para um chaveiro. Apelei para o apartamento que fica abaixo do meu. A vizinha, uma americana muito simpática, com um bebê muito simpático e uma cachorra maior que eu, abriu a porta. A ideia era tentar subir pela escada de incêndio, já que era verão e a janela de meu quarto estava aberta. Tentativa em vão: a escada estava muito alta. Enquanto ela tentava me ajudar com o que fazer, não parava de falar. Contou que seu marido tinha saído para pegar o carro, depois que ele teve um mini ataque de pânico ao achar que o carro deles tinha sido roubado. Ele só tinha confundido a rua onde o carro estava estacionado. Homens… Quanto ao meu apartamento, bem, precisei subir ao terceiro andar, bater à porta de outra vizinha e descer pela escada de incêndio. Foi uma aventura. A escada é íngreme e apertada. E eu não tinha nem o meu celular para filmar aquele momento! Preciso destacar, é claro, a prontidão com que a senhorinha do 3B atendeu o meu pedido. Pensem bem: uma moça com roupa de academia, que você nunca viu na vida, aparece a sua porta às 11 da manhã querendo entrar em sua casa para pular pela janela. Não pude deixar de notar o breu do apartamento, que tinha cortinas pretas, fechadas, num dia lindo de sol.

Acabou que o casal com o bebê se mudou poucas semanas depois. Foram substituídos por um casal francês – fato que descobri  em um sábado à tarde, por acaso, quando ele limpava o pátio (o apartamento deles, no térreo, tem pátio privado), enquanto escutava algo que talvez pudesse ser uma rádio francesa… Claro que podem ser canadenses também. Já ouvimos o sotaque e concluímos que são estrangeiros, como nós. Ah, e a bebê deles já nasceu; escutamos seu choro à noite algumas vezes e hoje ouvimos seus gritinhos e grunhidos fofos. Em alguns domingos de verão, eles fizeram almoços no pátio que pareciam ser uma delicinha. Receberam vários amigos e nos deixavam um tanto nervosos por manterem a porta do prédio aberta para suas visitas. A falta do senso coletivo, nestas horas,  irrita bastante. Sabe como é, brasileiro é desconfiado, vive com porta trancada e já imagina que qualquer pessoa que estiver passando pela rua vai aproveitar a oportunidade para entrar no prédio e roubar algo.

Nosso prédio ainda conta com algumas personagens. Tem o “coroa” de cabelos grisalhos que fuma e todos os dias desce para saciar o seu vício – afinal, não é permitido fumar dentro do prédio. Ele é o homem dos pés descalços, pois sai de seu apartamento, desce as escadas e fica nos degraus externos do prédio, descalço. Descalço. Tal visão me provoca arrepios, pois fico imaginando quanta poeira e cabelos grudam na sola de seus pés – sem contar o contato com as fezes de pombos, que deixam suas marcas em vários cantos – inclusive nos degraus onde ele fica em pé, tragando seu cigarro, enquanto lê o jornal. Não tenho ideia se ele é casado, se tem filhos, se mora sozinho. Mas ele sempre cumprimenta com um bom dia ou um “hello”. Em nosso prédio, tem também a menina descolada que mora em um dos studios do térreo. Studios são como as quitinetes, ou, apartamentos de um cômodo só. Ela tem um cachorrinho muito fofo – fato que me intriga, afinal, fomos proibidos de ter animal de estimação- escuta música Hare Krishna e acende incensos. Encontro-a poucas vezes, quando está levando seu pet para fazer as necessidades. Já ia me esquecendo do galã. Eu o encontrei outro dia, quando estava saindo cedo para a academia e ele, certamente, para o trabalho. Vestindo terno, todo engomadinho, usava um perfume muito gostoso, abriu a porta para  mim e desejou “bom dia” com muito bom humor. Lembro que fiquei pensando em como o cara deveria ser feliz – afinal, não é tão comum encontrar os novaiorquinos tão bem humorados logo pela manhã, numa terça-feira. Tem também o vizinho do outro studio, que assiste à TV com volume bem alto. A janela da frente do studio dele fica para a rua e, embaixo, fica uma espécie de baú, onde estão os quatro recipientes para os inquilinos colocarem o lixo. Pode não parecer, mas onze apartamentos produzem bastante rejeito. Tanto que todo mundo costumava empilhar bastante lixo ali – chegando à altura da janela do pobre vizinho que, revoltado, deixou um bilhete em sua janela. O recado foi simples: não empilhe o seu lixo, eu moro aqui. Justo. Desde então, ninguém mais fez isso.

E tem a senhorinha, do título do post. A que eu deixei por último. A que abriu a porta para eu pular a janela e entrar em meu apartamento que não abria de jeito nenhum. Logo quando nos mudamos, ela acabou encontrando conosco na entrada do prédio.  Muito querida, pegou na minha mão, deu as boas-vindas e disse que amava morar aqui. Isso eu só lembrei bem depois, claro. Lembro que respirei aliviada quando a ouvi  falando isso e concluí: escolhemos bem o nosso novo lar. Afinal, se uma pessoa de idade estava feliz morando ali, significava que ela tinha paz e tranquilidade, coisa que eu também procuro num lar. Quatro meses depois, essa mesma senhorinha foi protagonista de um episódio que eu nunca mais vou esquecer. Era uma noite de verão, minha mãe e minha irmã estavam aqui nos visitando. Minha mãe lavava a louça – olhem a ironia, eu demorei meses para usar minha lava-louças – meu marido guardava o resto da pizza que tínhamos pedido para a janta e eu minha irmã olhávamos as fotos que tínhamos feito naquele dia. Era tarde, por volta de 11 horas da noite. De repente, minha irmã me cutuca e aponta para a porta. Aquela senhorinha havia entrado em minha casa. Nós não tínhamos o hábito de trancar a porta – fazíamos isso apenas antes de dormir. Muito assustada – e sem lembrar quem ela era exatamente – eu perguntei o que estava acontecendo. Ela respondeu que ouviu vozes. “Hum, estamos falando muito alto”, pensei. De fato, estávamos rindo e conversando num tom mais exaltado. Respondi rapidamente – e incomodada com tamanho atrevimento: “Bem, a senhora poderia ter batido na porta, não?”. A essa altura, eu estava tremendo. Estava assustada, afinal, uma pessoa estranha havia entrado em meu apartamento. Eu senti medo, confesso. Mas ela era indefesa. Ela perguntou onde estavam as outras pessoas. Meu marido ofereceu pizza. Seguimos uma sequência de diálogos rápidos – enquanto minha mãe, que não fala inglês, olhava tudo sorrindo, sem entender nada. Decidimos perguntar à senhorinha onde ela morava. Ela não sabia. Ela não lembrava. De repente, ela se deu conta que tinha saído do ar. Foi quando eu lembrei que ela era a senhorinha do 3B. Meu marido a acompanhou até seu apartamento, onde sua irmã a aguardava, muito incomodada e sem paciência – e sem parecer que estava preocupada com o fato de a senhorinha estar zanzando de pijama sozinha àquela hora da noite. Concluímos que a senhorinha tinha algum problema. Alzheimer, talvez. Ficamos mal. Ficamos com pena e, no fim, ficamos aliviados pelo fato de nossa porta estar destrancada e ela ter entrado em nossa casa. Sabe-se lá onde ela poderia ter ido e o que poderia ter acontecido com ela…

Um ano mais tarde, por volta do mesmo horário, eu e Thiago assistíamos a mais um episódio de Narcos. De repente, alguém bate a nossa porta. Fiquei assustada. Era muito tarde, não conhecemos ninguém no prédio que tenha intimidade para bater a nossa porta àquela hora. As batidas continuam. Eu fiquei com medo. Digo para o Thiago: não abra, espie quem é. Sim, era a senhorinha, novamente. Espiei também e a vi, em suas roupas de dormir, quando escuto que alguém de cima a chama: “você mora no 3B”. Confusa, ela não sabe nem se para chegar ao 3B é preciso descer ou subir. A voz a orienta e diz que ela tem que subir. E lá foi ela. Talvez ela tenha tentado entrar outra vez, porém, nossa porta agora estava trancada.

Parei para pensar em quantas coisas aconteceram no último ano: quantas descobertas, quantas mudanças, quantas pessoas entraram em minha vida, quantas saíram, quantos aborrecimentos eu tive, quantas alegrias, quantos planos, quantas derrotas, quantas conquistas. E me senti grata por cada uma dessas coisas…

Não, essa não é a minha casa, mas poderia ser… quantas vidas, quantas histórias, quantas alegrias e quantas tristezas escondem-se atrás dessas portas? 

O anonimato em Nova York: até que ponto é legal ser invisível?

Eu cresci numa cidade pequena. Muito pequena. 7 mil habitantes para ser mais exata. E toda vez que eu conheço alguém aqui, rola aquela pergunta clássica. Se a pessoa é gringa, ela vai chutar que você é do Rio ou de São Paulo. Raríssimas vezes conheci gringos que conheciam Santa Catarina. Eu já ficava feliz da vida. Num mundo onde São Paulo e Rio são quase únicas referências brasileiras, saber que seu estado é conhecido por alguém já te faz feliz. Sério, a gente fica tão satisfeita! Orgulhinho, sabem? E, claro, também tem o exemplo que rola com os brasileiros. Em duas frases, eles já sabem que eu sou do sul. Mas para aí encontrar alguém que já ouviu falar de Meleiro… foi raro. Às vezes, não quero nem falar o nome da cidade, eu já adianto: gente, vocês não conhecem, eu tenho certeza. Morei por 18 anos em Meleiro. Cresci, estudei, curti a infância e a adolescência lá. Saí de lá para fazer faculdade e nunca mais voltei.

Como eu cresci em um lugar assim, convivi com situações que só quem vive em cidade pequena sabe. Eu ia de bicicleta para a escola. Os pais das minhas amigas conheciam os meus pais. A referência sobre uma pessoa vinha com seu sobrenome. “Fulano é filho de quem?”. Não, não era uma referência para fazer alguém importante, era porque através disso já se desencadeava toda uma árvore genealógica e ficava mais fácil ou mais difícil confiar em tal pessoa. A gente também conhecia todos os vizinhos. E trocava de tudo com os vizinhos. Faltou um ovo? Uma xícara de açúcar para aquele bolo? Um refratário para aquela receita? Era só pedir para a vizinha. E se a horta estivesse farta demais, nunca era um problema: a gente vivia dividindo aquela penca de banana, aquele pé de alface, aquela muda de chá.

Definitivamente, essas são situações que só quem vive em cidade pequena sabe. Agora, vocês imaginem sair de uma cidade de 7 mil habitantes e vir morar numa cidade onde a população passa dos 8 milhões de pessoas. Imaginaram? Parece uma mudança caótica, mas eu acho que no fundo eu tirei de letra. Óbvio que tivemos alguns problemas ao lidar com as novas burocracias, mas, afinal de contas, trata-se de uma mudança de país. Nunca é fácil. Só que aqui, como já falei em outras oportunidades, a gente perde as referências. Não sou mais a filha do Donato nem a esposa do Thiago, que trabalhava em tal lugar, vizinha do fulano. Já são três anos e meio morando aqui e eu não sei o nome dos meus vizinhos. E olha que só tem 11 apartamentos no meu prédio. O caixa do supermercado, ao contrário do que acontecia em Meleiro, não sabe meu nome, nem onde eu moro, nem sonha quem são meus pais. Não tenho “conta” em nenhuma loja daqui. O pessoal da academia não sabe meu nome. Minha identificação é um código de barras. Poucas vezes rola conversa fiada no metrô. Sempre falei que a liberdade de você poder ser quem você quiser é maravilhosa. Mas existe aquela contradição de você não ser conhecido e, ao mesmo tempo, ter a sensação de que ninguém se importa com você. Outro dia, um motorista de táxi foi encontrado morto dentro do seu carro aqui em Nova York. Ele tinha parado para uma soneca e nunca mais acordou. Teve um ataque cardíaco e seu corpo só foi descoberto no dia seguinte, quando sua mulher ligou para a companhia de táxi porque ele não tinha voltado para casa. O carro foi rastreado e aí sim descobriram que ele estava morto. Triste, né?

Porém, no meio disso tudo, nossa vida no bairro tem um personagem muito peculiar: o tio da banca de frutas. Aqui em Nova York, é bem comum, principalmente nos bairros residenciais, encontrar bancas de frutas a cada esquina. Acaba sendo uma opção bem melhor para comprar frutas e verduras do que os supermercados. Mas, enfim, a ideia não é falar da banca e sim do tal tio. Veja bem, eu não sei o nome dele, não sei a sua história, não sei onde ele mora. Acredito que ele seja indiano, tanto pelas suas feições como pelo seu sotaque. Mas ele acaba desempenhando um papel bem peculiar nas nossas vidas. Primeiro, ele marca presença na esquina sempre: faça chuva ou faça sol, faça frio ou faça calor, a banquinha de frutas está ali. Aparentemente, ele divide os turnos com outros colegas. Ele sempre lembra de mim. Quando eu fico um tempo sem comprar, ele comenta que nunca mais apareci. Ele ajuda a escolher as melhores frutas e é sempre sincero. Ele me avisa quando a temporada de blueberries vai acabar: “melhor comprar, mês que vem vai dobrar de preço” ou  “amanhã teremos abacates melhores”. Ele faz descontos especiais e vez ou outra ainda completa a minha sacola com uma pêra, uma banana ou uma ameixa. O tio das frutas é aquele rosto familiar no meio dessas oito milhões de pessoas, aquele que faz sua vizinhança ter cara de vizinhança, aquele ponto de referência. É aquele lugar simples que o Whole Foods não conseguiu substituir, onde o cartão de crédito não é aceito e onde as sacolas não têm luxo. Eu fiquei devastada no dia que estava sendo atendida e vi um menino roubando uma banana, na maior cara de pau. Senti como se tivesse sido comigo e me senti pior ainda por não ter feito nada. Fiquei paralisada com a cara de pau do menino cheio de panca pegando uma banana sem pagar. Poxa, o tio é tão legal, ele não merecia ser roubado.

Mesmo assim, talvez eu não fique sabendo caso ele adoeça ou morra. A vida fora do país pode trazer relacionamentos intensos ou rasos. E muitos com prazo de validade. Pessoas vêm para Nova York por diferentes objetivos: trabalhar, estudar, passear. Algumas cruzam o seu caminho, entram na sua vida e ficam para sempre. Outras farão uma passagem breve e depois deixarão só lembranças (boas ou ruins).  Não existe meio termo. Ou você tem pessoas com quem pode contar, ou não tem. Eu já tive diversas fases e hoje eu quero “acumular” pessoas, sabem? É mais ou menos assim: você conhece pessoas legais e pensa “preciso manter essa pessoa na minha vida”. Já tive um período sem amizades, sem companhias, sem ter com quem contar. Agora, sempre penso que preciso ter o maior número possível de amigos, para nunca me sentir sozinha aqui. E, de um jeito ou de outro, a gente finge que acredita que é para sempre. Porque, no fundo, lá no fundinho, a gente sabe que, cedo ou tarde, algumas dessas pessoas vão partir pra outra aventura. É preciso deixar o medo da decepção e da despedida de lado. E confesso: não é fácil.

No meio disso tudo, espero que Nova York possa oferecer mais “tios”, mais rostos familiares, mais pessoas que se importam com você.

5 mitos sobre alimentação em Nova York

Não dá para negar que quando se fala em Estados Unidos, as pessoas já têm vários estereótipos na cabeça. Uma coisa que eu sempre gosto de lembrar é: você gosta quando todo mundo acha que o Brasil se resume a samba e futebol? Você curte quando as pessoas pensam que a gente fala espanhol ao invés de português? Pois é… então, eu acho que a gente poderia fazer um exercício de não generalizar ou não afirmar nada sem ter certeza, sabem? Porque esse tipo de assunto é assim: um fala para o outro, vira um telefone sem fio e aí, aquilo que era um “achismo” vira certeza. Eu falo isso porque escrevendo sobre Nova York há mais de três anos e estando em contato com os viajantes nas redes sociais, vejo esse tipo de mito surgir todos os dias. Um dos maiores equívocos em relação à Big Apple é em relação à comida. Acredito que ainda falta informação às pessoas que viajam pra cá, por isso, decidi desmitificar algumas coisas que as pessoas pensam a respeito de alimentação na cidade…

1. “Só existe fast food em Nova York”

É fato que os EUA tem um nível alarmante de obesidade e que sim, muitos americanos amam fast food. Também é verdade que aqui é o paraíso desse tipo de lugar – há incontáveis redes de “junkie food”. Mas aí pensar que Nova York, a capital do mundo, tem suas opções de alimentação reduzidas a isso, é, no mínimo, falta de informação, minha gente. Eu diria que Nova York é a cidade onde você pode experimentar de tudo: desde fast food, passando pela culinária mexicana, tailandesa, japonesa, italiana, brasileira… Há locais simples e locais sofisticados – e, inclusive, restaurantes premiados mundialmente. Sério, são milhares de opções espalhados pela cidade. Há um papo que diz que você pode morar a vida toda aqui e comer em restaurantes nas suas três refeições e você nunca irá repetir um restaurante. Minha dica: baixe o Yelp e Foursquare, são ótimos aplicativos para pesquisar restaurantes na cidade. Contam com reviews, fotos, média de preços, endereços e mais.. Outra coisa: se você é leitor do blog, não pode acreditar nesse mito. Afinal, no menu Gastronomia, tem pelo menos mais de 60 posts com opções de lugares para comer na cidade.

2. “Comer em Nova York é muito caro, por isso só vou ao Mc Donald’s”

Eu juro que morro um pouco por dentro quando ouço alguém falando isso. Isso não é verdade. Nova York está cheia de opções baratas – sério, Mc Donald’s está longe de ser a única opção para quem viaja com orçamento apertado. Novamente, pesquisa e planejamento super ajudam nessas horas. Aqui mesmo no blog, você vai encontrar várias dicas de lugares baratos para comer – de novo, sugiro explorar o índice de posts de GastronomiaTem muitas redes de comida (não fast food) com refeições que giram em torno dos U$7 a U$10, como IndiKitch, Chipotle e Fresh&Co. Além disso, há restaurantes tradicionais – para sentar-se à mesa – cujos menus não são super “salgados”. Só para dar uma ideia, neste post e neste aqui, eu listo algumas opções. Outra coisa que eu acho que vale lembrar: 99% dos menus dos restaurantes ficam na parte externa. Ou seja, você pode avaliar e decidir se o local te interessa. Não custa nada e ninguém precisa ficar com medo de entrar num restaurante, não gostar do menu e ficar com vergonha de ir embora. Cheque sempre as opções de “entrée” – são os pratos principais. Não se assuste: sentar-se para comer na maioria das vezes não vai te custar um rim!

3. “É impossível comer saudável em Nova York”

Sim, existem muitos americanos sedentários e com maus hábitos alimentares, mas Nova York, definitivamente não se encaixa nesse quesito. As pessoas aqui são muito saudáveis – a maioria delas, claro que, como tudo na vida, não dá para generalizar. Porém, a cidade reflete muito o estilo de vida das pessoas que vivem aqui. Há uma infinidade de restaurantes com pegada saudável – eu mesma já fiz um post aqui no blog com algumas sugestões. Tem restaurantes especializados em saladas, outros que vendem sucos mega naturais… Além disso, praticamente qualquer outro restaurante comum tem alguma salada no menu. Novamente, não generalize: nem tudo se resume a fast food!

4. “Comida de rua não presta”

Outro dia, passei pela região do Rockfeller Center, na sexta avenida, na hora do almoço. Há vários carrinhos de comida por ali e quem esperava nas filas? Uma galera “engravatada”. Essa região tem muitos escritórios e muita gente pega seu almoço nos carrinhos de rua. Comida de rua não significa comida ruim. Nova York tem, inclusive, carrinhos famosos e premiados – como o Halal Guys. Além disso, essas opções não pesam no seu bolso – tá aí mais um motivo para não pensar que só dá pra economizar comendo MC Donald’s. Aqui tem um post com algumas dicas de carrinhos imperdíveis – mas não esqueça que a cidade tem infinitas opções nessa categoria!

5. “Arroz e feijão só existe em restaurante brasileiro”

Primeiramente, eu diria para você esquecer a comida brasileira enquanto estiver passeando aqui. Aproveite, você está num lugar riquíssimo em gastronomia. Como eu disse, com pesquisa e planejamento, dificilmente você vai ter alguma surpresa desagradável. Segundamente, se não der para ficar sem o arroz e feijão, não se preocupe, porque o prato não é exclusividade de restaurante brasileiro. Restaurantes mexicanos, em sua grande maioria, costumam ter arroz e feijão. O Chipotle, bom e barato, é um deles. Aliás, vários restaurantes de comida latina contam com esse prato.

Espero que vocês tenham gostado do post e que ele tenha ajudado a elucidar algumas coisas sobre alimentação em Nova York!

Dizendo adeus a Nova York…

Antes que vocês tomem um susto: não, não estou indo embora. Nem sei se um dia quero, mas a vida é cheia de surpresas – por isso que acho que “para sempre” e “nunca” são palavras que devemos usar com cuidado nessa vida… O post de hoje é um relato de uma convidada especial, a Clarice. A Clarice é uma leitora do blog que se tornou uma amiga muito querida – e que, daqui a poucas semanas, vai se despedir de Nova York. Nesse pouco tempo que convivemos, trocamos muitas experiências e relatos. Foi num desses nossos encontros que a Cla, que está aqui há dois anos, contou os motivos pelos quais estava indo embora. Sim, Clarice, nascida nos EUA e filha de brasileiros, está voltando para o Brasil e sim, ela está feliz com sua decisão. Eu sempre falo aqui que morar fora não é fácil e achei bacana trazer a perspectiva de outra pessoa pra cá. Ela topou dividir a sua história e eu espero que vocês leiam, curtam e apreciem, sem julgamentos, pois cada um sabe de suas dores e suas delícias…

“Bom, vamos lá! Meu nome é Clarice, tenho 26 anos e minha história com Nova York começa quando eu ainda era criança e meu pai me levava para cidade com ele. Tenho essas memórias bem vivas e nunca imaginei que anos depois, tudo iria se “encaixar”. Nasci e vivi parte da minha vida em uma cidade chamada Bridgeport, em Connecticut, EUA. Quando já tinha nove anos, meus pais decidiram voltar para o Brasil, e é claro, fui junto!

Avançando alguns anos, cursei faculdade de Jornalismo em Vitória (ES) e, nesse meio tempo, passei três meses estudando moda em Nova York. Voltei, trabalhei com produção de TV, assessoria de imprensa e, por último, em um jornal online. E foi neste emprego que as coisas começaram a mudar. Sabe aquela fase que você odeia seu trabalho, arrepende-se da escolha profissional que fez e não consegue enxergar a luz no fim do túnel? Pois bem. No meio dessa confusão toda só tinha uma certeza: queria morar e trabalhar na Big Apple! Comecei a juntar dinheiro mesmo sem saber ao certo quando isso iria acontecer e muito menos como.

Um belo dia, meus chefes me chamam na sala de conferência e.. fui demitida! Na hora, meu mundo caiu. Eu me senti um fracasso. Mas, alguns dias se passaram e repensei tudo que estava acontecendo. Não acredito em acasos e tomei esse tapa com um: “acorda! existe um mundo para você lá fora”. Na faculdade, minhas matérias preferidas eram relacionadas ao marketing, produção e assessoria; sempre gostei de moda e amo tecnologia. Juntei todas essas informações e fiz aquela pesquisa aprofundada na internet. Dois meses depois, no dia 14 de junho de 2014, estava em Nova York. Tinha uma aula paga na especialização de Marketing Digital na Fashion Institute of Technology, um quarto alugado com pessoas que não conhecia e algum dinheiro no banco. Não tinha passagem de volta e nem imaginava o que estava por vir, e na real, ainda não sabia muito bem o que estava fazendo.

Cheguei aqui achando que ia bombar! Currículo cheio de experiências legais, inglês fluente, vontade de aprender etc. Mas a realidade foi outra.. Acredito que isso aconteça em qualquer país para onde você vá sem algo certo. Além de ser só mais um, você tem que começar do zero! Tem que aprender que nesse novo destino você não é ninguém e ninguém sabe quem você é.

Depois de alguns meses, e com o dinheiro acabando, tive que deixar o orgulho de lado e fui trabalhar em restaurante. Sabia que não queria aquilo para minha vida, mas aceitei esse momento de transição e fiz o meu melhor. Durante os quase dois anos de curso, fiz poucas amizades e passei muito tempo sozinha. Sim, a cidade de milhões de habitantes pode ser bem solitária… Então, quando terminei a especialização, resolvi passar uma temporada no Brasil. Precisava dos meus pais e amigos, precisava respirar um pouco… Trabalhei no negócio da família e aprendi muito.. mas tinha uma passagem de volta para Junho de 2016 e o que seria uma viagem a passeio se tornou mais uma estadia na cidade. Àquela altura, eu já sabia o que queria profissionalmente, mas ainda estava descobrindo como aplicar isso na minha vida. Voltei a morar com roommates e a trabalhar em restaurante no início, mas logo encontrei um emprego na minha área. Aí eu me apaixonei ainda mais pela profissão e achei que estava no caminho certo.

Decidi viver essa “nova” experiência de uma forma diferente. Queria me arriscar mais e estava mais aberta as surpresas da vida. Fiz amizades, saí, conheci pessoas bacanas e aproveitei demais. Mas ainda tinha algo que me incomodava, e é até difícil explicar. Em um dado momento, eu me peguei mais empolgada com a idea de me dedicar a um projeto pessoal do que com o emprego que tinha.. e aí comecei a achar estranho. Levei um tempo para perceber tudo que estava acontecendo e quando me dei conta.. meu mundo desabou. Doeu na alma e foi preciso muita paciência e fé para colocar minha cabeça/coração no lugar e avaliar a situação.

Foi assim que decidi voltar para o Brasil. Sim, isso mesmo. Neste momento, tive que avaliar o que é felicidade para mim, aonde sinto paz. Fiz essa escolha pensando única e exclusivamente em mim, no que verdadeiramente faz minha alma vibrar. Mas não tinha data definida e no fundo, ainda não tinha criado total coragem. Por muito tempo me senti culpada. Como assim? Tenho documentação, completei uma especialização na profissão que amo, trabalho em um escritório de moda.. tudo na cidade de um milhão de possibilades, onde muita gente vem buscar o que eu já tinha conquistado e mesmo assim não me sinto bem?

E aí vem a história do “nada é por acaso”, de novo. Com toda essa confusão mental rolando, a empresa que trabalhava estava passando por uma crise e eu fiquei sabendo em Janeiro, mas não podia sair porque estava participando de um projeto e precisava concluí-lo. Comecei a procurar empregos como plano B e nesse meio tempo, também comecei a pesquisar e me dedicar ainda mais ao meu projeto pessoal. Montei toda a metodologia do negócio, coloquei o site no ar e divulguei entre amigos e possíveis clientes. Em Abril, tive que sair da empresa. Poderia continuar procurando por trabalho? Sim. Mas por que continuar adiando e enganando meu coração, a minha intuição? Não fazia sentido. A verdade é que morar em Nova York estava me consumindo demais. E enfim, consegui decidir minha data de volta.

Meu pai sempre me falou que não importava o lugar no mundo que estivesse, os problemas sempre iriam existir. Nunca dei muita bola, mas hoje além disso, acredito que muito dos problemas também estão em nós. Nova York me reeiventou e um dos aprendizados foi: viver com leveza! Tudo pode mudar do dia para noite. E outra: é preciso se orgulhar das suas escolhas, independente de qualquer coisa. Certa vez eu li: “Abrace uma vida difícil. Uma vida com altos e baixos. Uma vida com incertezas, uma vida com surpresas. É a que você vai lembrar, é a que você ama, é a que você compartilha”. E é isso!

Seria um adeus? Acho que nunca vai ser. Sempre vou vir para Nova York quando puder e parte de mim pertence a esse lugar, tem história. Mas preciso desse tempo sem passagem de volta. Trabalhar, viajar e conhecer outros mundos. Outros lugares dentro de mim…”

Obrigada, Clarice, por nos presentear com o seu depoimento! Eu te desejo só alegrias nesta nova etapa da sua vida!

A história da Clarice me fez pensar em muita coisa… e eu trago a reflexão pra cá. Muita gente me escreve dizendo que está cansado, frustrado com sua vida. Lembre-se que morar fora não soluciona problemas. Você deixa de ter alguns problemas, mas terá outros. Não acredite em contos de fada, pois eles não existem. A vida de ninguém muda magicamente ao pisar em terras gringas, tenha sempre isso em mente. Não condicione sua felicidade ao “morar fora” – viva o hoje. Há quem condicione tanto a sua vida a uma mudança dessas que acaba esquecendo de viver o presente…

7 coisas que você precisa saber antes de morar fora

Vocês sabem que, além das dicas de Nova York, eu gosto muito de dividir com vocês as verdades sobre morar fora. Esse assunto já foi tema de vários posts e vídeos aqui no blog e é algo que sempre me inspira a escrever. A gente tem essa ideia de que morar fora é sempre melhor – afinal, a grama do vizinho é sempre mais verde, não é – e acho que quando se trata de Nova York essa ideia é ainda mais romantizada. Faz três anos que eu moro aqui – e, por enquanto, não temos planos de voltar ao Brasil. Sim, sou muito feliz morando aqui – e não, isso não significa que a minha vida seja perfeita e sem problemas. Morar fora soluciona, sim, alguns problemas, mas não zera essa equação. Os problemas são outros. Hoje, resolvi falar sobre 7 coisas bem importantes sobre morar fora, que têm muito a ver com o estilo de vida e com o processo de adaptação aqui. Esses fatos são baseados na minha experiência e pode ser que não se apliquem a todas as pessoas. Mas, de qualquer forma, achei válido compartilhar….

1. O idioma sempre vai ser uma barreira – não importa quantos cursos de inglês eu faça – a minha língua materna sempre vai ser o português. E aqui nem estou entrando apenas no mérito do sotaque, que sempre vai “entregar” o fato de que sou estrangeira – em um cidade como Nova York, isso não é um problema sempre. Falo de vocabulário mesmo. Eu me considero fluente, mas infelizmente a gente não está preparado 100% para todas as situações que a vida te apresenta. No momento, estou fazendo um tratamento médico e cada vez que vou ao consultório, meu inglês é colocado à prova. São termos que não entendo – e que estou aprendendo – são palavras que preciso encontrar para me expressar. Confesso: é frustrante. Principalmente quando o seu interlocutor não entende o que você quer dizer. E não importa se um dia eu me torne uma cidadã americana – eu vou ser sempre brasileira. E não estou falando que me acho menor por isso, muito pelo contrário, tenho muito orgulho das minhas origens.

2. Você precisa se reinventar e começar do zero – tenho muitas amigas que vieram morar aqui pelo mesmo motivo que eu – o marido foi contratado ou transferido pra cá. Todas nós tínhamos carreiras no Brasil: advogada, jornalista, engenheira química, farmacêutica. Ao contrário do que muita gente pensa, o mercado de trabalho aqui é acirrado. Já parou para pensar quantas pessoas estão aqui em busca dos seus sonhos? Quantas pessoas, de todos os cantos do mundo, estão na busca do seu lugar ao sol? E já parou para pensar que nem sempre é só chegar e começar a exercer sua carreira? Profissões como advogadas e outras da área da saúde exigem mais formação e provas para que você se enquadre aos requisitos de trabalho aqui. Muitas vezes, é preciso recomeçar do zero. Conheço pessoas que estão trabalhando em áreas completamente diferentes, já outras que estão há algum tempo estudando e se dedicando para tentar se adequar às exigências. E você sabia que nem todas as categorias de visto de trabalho dão, automaticamente, autorização de trabalho para o esposo/esposa? Sim, o visto de trabalho, o mais desejado por 90% das pessoas, não dá autorização de trabalho para o cônjuge. Não me pergunte o motivo, essa é a pergunta que deve pipocar na cabeça de todas as mulheres (sim, a grande maioria dos vistos H1B emitidos são para homens) que estão aqui e ficam impossibilitadas de trabalhar. Para quem tem planos de carreira e ambição, é bem frustrante. Isso que estamos falando dos trabalhos formais. Não dá pra ignorar o fato de que há milhares de pessoas que vêm para os EUA “tentar a vida”.  Gente que tinha emprego “bacana” no seu país de origem e vem pra cá trabalhar como garçom, com faxina ou cuidando de crianças. Nada menos digno, porque nenhum trabalho te faz melhor que o outro, né? Mas e você: estaria sujeito a qualquer tipo de trabalho?

3. Perda de identidade – isso tem muito a ver com o tópico anterior. No Brasil, você tinha a sua carreira, a sua profissão, a sua identidade. Eu era a Laura, naural de Meleiro, que estudou na Unisul, filha do Donato e da Meri, que trabalhava com mídias sociais, que tinha um blog sobre moda e beleza. Aqui, as suas referências não servem mais para nada. É como se você zerasse a sua vida e precisasse reconstruir sua identidade. Agora, eu sou a Laura, brasileira, que mora aqui desde 2014, blogueira que escreve sobre Nova York, criadora de um aplicativo, casada. Óbvio que não é só isso que resume quem eu sou, mas muita coisa mudou. Tudo que eu vivi até vir morar em Nova York contribuiu e muito para a pessoa que me tornei, mas são referências internas. Ninguém conhece a minha cidade – aliás, pouca gente conhece mais que Rio ou São Paulo quando o assunto é Brasil. Meu currículo, apesar de ser interessante para a cidade onde eu morava, não é tão bom assim para concorrer num mercado como o de Nova York. Apesar de eu estar morando legalmente aqui, não sou livre para fazer o que quero, pois a imigração limita bastante o que uma pessoa pode fazer aqui, em termos burocráticos.

4. Desconstrua tudo – e quando eu falo tudo, falo até do gosto por comida. Nada contra quem mora fora e assina a Globo Internacional – quem sou eu pra dar pitaco na programação de televisão da casa dos outros? Mas, ao mesmo tempo que você não quer perder a novela, permita-se assistir outras coisas. Tem que acompanhar o noticiário, saber o que está acontecendo no lugar onde você vive. Também é preciso ter em mente que os hábitos são outros. Falando em Nova York, não esqueça que espaço é artigo de luxo e os apartamentos são pequenos, que ter carro não é algo viável, que o inverno é bem diferente do Brasil (e dura meses), que você vai precisar levar a sua roupa para lavar… E que talvez você não vá encontrar mamão papaya no mercado, mas em compensação tem morangos e framboesa por um preço muito mais em conta. Que talvez você não encontre aquele leite condensado em todos os mercados, mas que aqui tem outras milhares de coisas que não existem no Brasil. Corte o cordão umbilical. “Ah, mas no Brasil não era assim”. Exato, mas, lembre-se: você não está mais no Brasil. Não adianta reclamar que a cerveja não é gelada o suficiente, ou que o café é fraco demais, ou que aqui não dá para parcelar as compras. Desconstruir conceitos e adaptar-se à nova rotina é muito mais fácil do que ficar lutando contra coisas que você não vai conseguir mudar.

5. Conheça e viva a cultura – o último domingo foi Páscoa e, dias antes, ao me despedir de alguém que eu não veria até a semana seguinte, a pessoa me desejou Feliz Páscoa. Agradeci e fiz o mesmo, mas depois fiquei pensando em como a vida para Nova York mudou nosso jeito de encarar datas comemorativas. Natal continua sendo sagrado para mim, mas a Páscoa sempre passou em branco. Confesso que nunca foi minha data favorita e talvez por isso nunca fizemos nada especial. E também porque aqui não é algo tão forte como no Brasil. Em compensação, a gente fica animado para o Halloween e já faz planos para o Thanksgiving. Acho muito gostoso incorporar novas celebrações na nossa vida, faz a gente se sentir mais “incluído” no lugar onde vivemos.

6. O mito do barato – as pessoas ficam muito animadas para fazer compras em Nova York, porque os preços de muitos produtos costumam ser mais em conta quando comparados com os praticados no Brasil. Mas a vida das pessoas aqui não se resume em comprar como Becky Bloom e Carrie Bradshaw. Falando especificamente da Big Apple – e eu sempre bato nessa tecla – é bom lembrar que a vida aqui é muito cara. Sim, é barato comprar roupas, maquiagem e eletrônicos, mas aluguel, impostos, mercado e plano de saúde não são nada baratos. Serviços, então, nem se fala. Esqueça empregada doméstica e salão de beleza toda semana – isso nunca foi um problema para mim, pois nunca tive esse padrão de vida no Brasil, mas sei que é realidade para muita gente. Nem todo mundo consegue morar sozinho – muito menos num lugar charmoso do West Village – ninguém tem vista pro Empire State, não dá para sair para tomar um drink todos os dias. Aliás, não dá nem para você fazer o louco consumista, porque é muito provável que você não tenha espaço suficiente para guardar tudo o que compra.

7. Os benefícios são outros e o ritmo de trabalho também –  almoço com duração de uma hora e meia? 30 dias de férias? Emendar todos os feriados? Folga todos os fins de semana? Só no Brasil. O ritmo de trabalho aqui é bem diferente. Férias e licença-maternidade, por exemplo, dependem da política de cada empresa. Há empresas que dão até 28 dias de férias por ano, há outras que só liberam duas semanas. Nem todo feriado significa folga – alguns só beneficiam escolas mesmo. Sábado e domingo são dias de trabalho para muitas pessoas. E sabe o ditado “tempo é dinheiro”?. Pois é, aqui tempo vale muito mais dinheiro. A maioria das pessoas ganha por hora. Não trabalha, não recebe. Simples. Ah, e o almoço não é o mesmo ritual do Brasil. É difícil as pessoas pararem por muito tempo para comerem alguma coisa. Isso sem contar toda a burocracia dos planos de saúde. Não queiram saber os custos de consultas médicas e exames aqui. Sem contar o que me parece ser um pouco caso com prevenção a doenças. Sei que o SUS tem muitos problemas no Brasil, mas na cidade onde eu vivia, ele supria bastante as minhas necessidades. Aqui, não existe SUS.

Espero que tenham gostado do post! Morar fora é uma experiência ótima, enriquecedora, mas isso não significa que seja perfeita. Por aqui, vocês nunca me verão romantizando isso…

Minha experiência na New York Fashion week: convites, bastidores e uma análise

Vou ter que ser repetitiva e começar esse post com a legenda que usei para postar a minha foto no Instagram na sexta-feira passada, quando minha experiência na New York Fashion Week começou: se me falassem anos atrás que um dia eu estaria conferindo a NYFW de perto, acho que eu não acreditaria. Eu, blogueira e jornalista que nunca foi famosa no Brasil e nunca conseguiu um convite para a São Paulo Fashion Week, agora estava conferindo uma das mais importantes semanas de moda do mundo de perto. Hoje, uma semana depois – e com o evento oficialmente encerrado – há vários sentimentos e pensamentos que tomam conta da minha mente. Quando eu saí de casa sexta passada, com um frio de -11 graus, eu me questionei: será que devo fazer um vlog dos meus dias? Rapidamente, cheguei à conclusão que não. Afinal, o resultado seria um compilado de imagens de desfiles e acredito que isso não interessaria a vocês no geral. Na era das redes sociais, onde desfiles são transmitidos ao vivo pelo Instagram, Snapchat e outras plataformas, prefiro deixar a parte de análise de moda para os entendidos. Bastou eu conferir dois desfiles para um turbilhão de pensamentos dominar a minha mente. No fim do dia, já tinha uma ideia: depois do evento acabar, faria um post com as minhas impressões a respeito – mas não sobre tendências e looks legais, e sim sobre comportamento e como tudo funciona.

Vou começar pelo assunto que sei que gera muita curiosidade nas pessoas: os convites. A New York Fashion Week acontece duas vezes por ano – em fevereiro e em setembro, gera mais de U$2 milhões em atividade econômica para Nova York e atrai mais de 1 milhão de visitantes. Durante a semana, vários designers/marcas, incluindo nomes famosos como Calvin Klein, Michael Kors e Kate Spade, apresentam suas coleções. Uma coisa que é preciso saber é que cada desfile é um evento único (e acontecem em locações diferentes). Não existe um passe livre para a NYFW, existem os convites para cada desfile. Esses convites são disputados – quanto mais prestígio tem a marca, mais difícil é conseguir um convite ou mais importante você precisa ser para estar lá. O público dos desfiles pode ser definido em imprensa, blogueiros e compradores. As assessorias de imprensa das marcas são as responsáveis por selecionar os convidados. E, obviamente, como a organização de um desfile gera um investimento alto, a marca quer ter resultados à altura, ou seja, muita exposição na mídia. Ou seja, quem está lá tem que ter números, engajamento. E como muitas coisas na vida, tudo gira em torno de networking, contatos.  Se você tem um blog e quer conferir os desfiles, tem que correr atrás: descubra as assessorias de imprensa, apresente seu trabalho, faça contatos. Aqui nos Estados Unidos também existem muitas agências de influencers, que conectam os blogueiros com as marcas.

Ao todo, eu devo ter recebido uns 12 convites para desfiles e conseguir ir a 7 deles. Alguns eu recebi com bastante antecedência, outros só chegaram menos de uma semana antes do desfile. Conforme a lista de compromissos ia aumentando, aumentava também a minha felicidade. Como eu mencionei no início do post, é muito louco poder conferir de perto algo que antes você só via pelas redes sociais. Meu sentimento era de euforia, que se misturava à ansiedade. A New York Fashion Week traz para a cidade celebridades e blogueiras famosas do mundo todo, que contam com estilistas renomados enviando looks para esse pessoal todo vestir. Bem, eu não estou nesse patamar, não fui convidada para os desfiles mais famosos, mas é inegável a insegurança que tudo isso gerou em mim. O que vestir? Desde que me mudei para Nova York,  meu estilo mudou muito. Eu passei a apostar em peças mais funcionais, roupas que eu pudesse usar no dia a dia, que fossem versáteis e práticas. Meu closet inclui pouquíssimas peças que resultariam em looks “montados” ou super elaborados. Pesquisei algumas imagens na internet e fui anotando as minhas opções  de looks. Eu ia me virar com o que eu tinha. Mas e o medo de me sentir excluída?

No meu primeiro dia, não posso negar que fiquei feliz da vida com os comentários que recebi a respeito do meu casaco de pelo (fake, ok?) da Forever 21. Sabe quando você se apaixona por uma peça? Foi assim com esse casaco. E quando as pessoas começaram a falar tão bem dele, fiquei ainda mais confiante e com a certeza de que tinha feito um dos meus melhores investimentos. Aquela ansiedade que eu estava sentindo foi passando à medida que fui analisando todas as pessoas que chegavam para os desfiles. Percebi que, literalmente, você vê de tudo. E me senti bem. Minha auto-confiança foi aumentando à medida que eu observava as pessoas. Eu não queria vestir algo que não tinha a ver comigo. Eu via algumas meninas usando roupas muito “diferentonas”, com penteados, maquiagens super produzidas, gente de perna de fora num frio de -11, gente trocando de roupa na esquina do local do desfile, gente que parecia desconfortável com o que estava usando… Aí eu parei e pensei: a troco de quê? Qual o foco da NYFW? Os designers e as coleções apresentadas ou o público? Não se pode negar a influência do street style para a moda – há muitas meninas com estilos incríveis e looks incríveis, que trazem inspiração e ideias para o dia a dia. Mas eu vi produções que me pareceram ter sido pensadas com o único propósito de causar. Não quero julgar ninguém, mas acredito que ser fiel ao seu estilo traz muito mais personalidade e auto-confiança. Se cada um faz o que bem entender, eu decidi ser fiel ao meu estilo e vestir o que tinha a ver comigo e que me fizesse sentir bem. Nos desfiles seguintes, não saí com preocupacão excessiva nenhum dia. Tanto que não queria saber de passar frio nos trajetos entre estações de metrô (sim, vida real! hahaha) e locações e usei, sim, o meu casaco de inverno de capuz e nada fashion.

Agora, voltando ao evento em si, quando as luzes se apagavam, anunciando que o desfile estava prestes a começar, eu me lembrava como era incrível estar ali. Fiz fotos e fiz snaps, mas não deixei essa preocupação excessiva com as redes sociais atrapalhar a minha experiência. Eu não presenciei isso, mas tenho uma amiga que participa da Fashion Week há mais tempo e me contou sobre meninas que estavam mais preocupadas com a foto perfeita do que viver o momento…  Eu queria observar e perceber o que estava acontecendo à minha volta, ver cada look. Amei a modernidade dos looks de Hakkan Akkaya, fiquei apaixonada pelos vestidos maravilhosos de Leanne Marshall e Sherri Hill e ainda senti muito orgulho de ser brasileira ao conferir o desfile incrível de Layana Aguilar e a apresentação da Farm. Mas olha, é tudo muito rápido, sabem? Admiro todo o trabalho dos designers e das equipes que se desdobram para dar conta desses eventos que duram minutos…

Depois de muitos dias de correria, fico feliz por ter tido essa oportunidade tão única. É incrível o encantamento que a NYFW causa nas pessoas né? E por saber que tanta gente gostaria de ter essa chance, eu me sentia mais grata ainda. Realmente, nunca imaginei que um dia iria viver isso e fico mais feliz ainda por Nova York ter me surpreendido de mais um jeito. Foi maravilhoso fazer parte de um evento tão famoso, conferir desfiles, fazer contatos e, o mais importante: não deixar a auto-estima cair no meio de um lugar onde aparência conta muito…