Blog da Laura Peruchi – Tudo sobre Nova York
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5 anos em Nova York – os planos profissionais e a tal “dependência” financeira

Eu diria que foi somente no dia 1º de fevereiro de 2014 que  nossa vida em Nova York começou oficialmente. Antes disso, nossa rotina de recém-chegados à capital do mundo girava em torno de encontrar um apartamento. A minha vida não parou durante o primeiro mês fora, mas é fato: quando não estamos em nosso habitat (pelo menos comigo é assim), as coisas não fluem tão facilmente. Depois da mudança para o nosso cantinho de verdade, parece que as coisas começariam a fluir. Ou não…

Inquietude sempre foi meu sobrenome. Ou talvez ansiedade? Sede por fazer algo novo? Veia empreendedora? Um mix de tudo isso? Não sei. O que sei é que quando Thiago me ligou numa noite em outubro de 2013 contando que tudo tinha dado certo na empresa e que iríamos nos mudar, virou uma chave na minha cabeça. A chave do medo do novo mas também da ansiedade pelo novo. Seria o “Resfeber”. Uma palavra de origem sueca que significa “o mix de sentimentos como medo e excitação antes de uma jornada começar”.

Ao mesmo tempo em que me desfazia de minhas coisas e preparava meu espírito para as despedidas, eu já arquitetava na minha cabeça todos os meus planos. Em 2013, eu era independente e estava muito bem profissionalmente: depois de atuar na área de assessoria de imprensa, migrei para o ramo de mídias sociais. Atendia cerca de seis clientes – a maioria da área da moda – assinava uma coluna no jornal da cidade e ainda alimentava um blog de moda e beleza, o Habitat Feminino. Morava sozinha, pagava meu aluguel, minhas contas, guardava um bom dinheiro. De repente, lá estava eu com a perspectiva de mudança para um país novo com um cara que do dia para a noite se tornou meu noivo e depois meu marido. E, quando isso se confirmou, eu entrei em contato com os clientes que achava que teria condições de atender a distância. Para a minha felicidade, eles toparam. Mudei para Nova York com quatro clientes na “bagagem” e aquela doce sensação de ter meu próprio dinheiro. Em reais. Mas, era o meu dinheiro.

Eu não sei se era ingenuidade ou hipocrisia da minha parte – ou até mesmo orgulho. Afinal, numa cidade onde os aluguéis de apartamento não custam menos de U$2 mil dólares, aqueles trocados em reais não fariam muita diferença no fim das contas. Mas, eles simbolizavam, dentro de mim, aquela independência que eu conquistei aos poucos, durante a minha vida. Eu consegui me virar morando sozinha logo depois da formatura em Jornalismo. Eu aprendi desde cedo a dar valor ao dinheiro. Ao fato de ter o meu dinheiro. Comecei a vender Avon com 13 anos e pagava várias coisas para mim – inclusive minha amada assinatura da revista Capricho. Depois, durante o período em que estava estudando, jamais deixei de procurar algo para fazer e ajudar meu pai nas contas. Trabalhei em loja – emprego que não sosseguei até conseguir – fiz estágio, fiz pesquisa científica com bolsa, fazia freelas de diagramação, configurava monografias nas normas da ABNT. Um pouco de tudo.

Em Nova York, porém, o cenário era diferente. Não dá para mentir: era o salário do Thiago que pagava as contas. Era o salário do Thiago que pagava o supermercado. Era o salário do Thiago que pagava a internet e a luz. Era o salário do Thiago que pagava as nossas saídas para jantar. A gente mudou de um cenário em que dividíamos as contas em nossas saídas aos fins de semana para um cenário no qual só uma pessoa tinha o poder de aquisição. E que fique claro, como sempre faço questão de salientar: isso nunca foi um problema para ele. Desde o começo, Thiago foi sempre muito cuidadoso e carinhoso ao dizer que o dinheiro era nosso. Entretanto, não era assim que eu me sentia. Eu nunca fui a louca do cartão de crédito – acho que sempre fui até bem contida considerando que vivo na meca capitalista do mundo. Mas, eu tinha minhas vontades: de cosméticos, de sapatos, de roupas, de livros ou de um simples chocolate quente. A culpa que eu sentia ao comprar algo para mim com um dinheiro do qual eu não me sentia dona era tão pesada que tirava todo o tesão e alegria que uma compra traz. Era como se eu estivesse quase cometendo um crime – ou que eu estava sendo uma aproveitadora. Somos de uma geração de mulheres que conquistou muitos direitos – inclusive o de trabalhar fora. Eu cresci com uma mãe que dedicou boa parte de sua vida para cuidar da casa e de seus três filhos – um trabalho importante e louvável, mas pouco valorizado pela sociedade. Eu via o quanto ela se incomodava ao ter que pedir dinheiro ao meu pai para comprar algo – e também vi o quanto ela comemorou vários de seus salários e várias de suas conquistas quando começou a trabalhar. Acho que é compreensível a minha luta interna para lidar com o fato de que o cenário havia mudado e agora eu me via  em uma “dependência” financeira.

Além de manter uma renda que na verdade era meramente “ilustrativa”, digamos assim, o trabalho com os clientes no Brasil era uma garantia. Na minha cabeça, era como não largar o osso. No fundo, eu tinha medo dessa vida nova em Nova York. Eu não sabia o que ia acontecer. E se o trabalho do Thiago não desse certo? E se a gente não se adaptasse? E se a gente voltasse? O que eu iria fazer? Pelo menos, eu tinha aquele trabalho. Eram tantas as  suposições e as inseguranças. Deixei 27 anos de vida confortável no Brasil, num lugar onde eu falava a minha língua, num lugar onde eu era independente financeiramente, num lugar onde eu tinha uma reputação profissional, para mudar para um lugar incrível, que habita o imaginário de milhões de pessoas, mas que era uma completa caixinha de surpresas para mim. Mas, lembram que eu falei lá no começo que eu sou inquieta? Pois é.

Não foi só a conversa com os clientes que aconteceu antes da mudança. Ideias pipocaram na minha cabeça. Como os tais clientes eram marcas de moda – e eu estava indo para uma das capitais da moda – logo tive uma ideia. Eu sabia que muitas dessas marcas faziam viagens internacionais para pesquisar tendências. Mas eu também sabia que não eram todas que tinham tal orçamento. Foi aí que eu enxerguei uma oportunidade: de ser essa conexão para marcas que gostariam de ter acesso a esse mundo da moda de Nova York – mas que não tinham um orçamento para poder bancar viagens assim. Detalhe: eu não sabia nada sobre pesquisa de tendências. Fui cara de pau: mandei mensagens para pessoas renomadas e conhecidas na minha região, entrei em contato com uma professora da faculdade de Moda, pesquisei. Teve gente que ajudou – a professora foi a única – e teve gente que escondeu o jogo. Comprei livros que me foram indicados e os  trouxe  para Nova York e comecei a estudar a respeito. Logo no começo, consegui vender a ideia para um de meus clientes e fiz pesquisa de moda por uns dois meses. Toda semana, eu saía para explorar as lojas da cidade e fazer fotos de peças conforme a demanda da estilista. Eu acreditava muito naquela ideia. E, frustrada por não conseguir as respostas que eu queria sobre como funcionava o tal mundo da pesquisa de tendências, fui atrás de buscar conhecimento. Foi quando eu descobri o curso do FIT – Fashion Institute of Technology. O FIT é uma das instituições de moda mais renomadas do mundo e, todo verão, promove um programa especial de inglês e moda. Por três semanas, você estuda inglês de manhã e moda à tarde. O conteúdo da tarde varia conforme a área de conhecimento que você escolhe. Para  minha sorte e alegria, naquele ano o FIT incluiu a opção de Fashion Trend Forecasting – ou, pesquisa de tendências, a minha escolha.

Esse curso aconteceu na metade do ano de 2014, meu primeiro ano morando em Nova York, e me causou um mix de ansiedade e insegurança. Eu não sabia o que me esperava – seria a minha primeira experiência fazendo um curso totalmente em inglês  e cujo foco não era o inglês. Aliás, nesse quesito da língua, eu já estava correndo atrás de me aperfeiçoar. Assim que chegamos aqui, a ideia era fazer um curso de inglês – porém, com os gastos envolvendo o aluguel do apartamento, a compra dos móveis e a nossa festa de casamento, que aconteceria em setembro daquele ano, o orçamento estava comprometido. Foi quando uma amiga – na real, ela me deu essa dica na noite que nos conhecemos aqui – falou a respeito do curso de inglês gratuito da New York Public Library. Não perdi tempo. Naquela mesma semana, pesquisei a respeito, fui fazer minha inscrição e logo comecei a frequentar os encontros duas vezes por semana. Mas, sabe a síndrome do impostor? Pois é. Mesmo estudando já há uns quatro meses, eu estava nervosa com as aulas no FIT. E, quer saber? Foi melhor do que eu esperava. Aquelas três semanas estudando foram corridas, cheias de coisas para se fazer, mas foram um divisor de águas. Acho que isso também se deve ao fato de que estávamos saindo de um inverno rigoroso e aquelas aulas cheias de novidade e inspiração aconteceram no meio de um verão quente, com a cidade emanando vida a cada esquina – e uma derrota de 7 a 1 do Brasil na Copa do Mundo, que eu, ainda bem, perdi porque tinha aula. Melhor assim. Mas, deixando as piadas de lado, aquelas semanas foram tão inspiradoras! Aprender pesquisa de tendências é como moldar o seu olhar e eu passei a ver uma Nova York tão mais incrível, sabe? Fiquei cheia de ideias, de motivação. Sem contar o fato de você se dar conta de que está entendendo o conteúdo em inglês e está se comunicando em inglês. O ápice de tudo foi a apresentação final. Foi um dos momentos daquele primeiro ano em que eu mais senti orgulho de mim mesma, de onde eu estava, do que eu estava fazendo. E, foi no meio disso tudo que eu recebi uma mensagem pelo LinkedIn de uma recrutadora de Nova York.

A vaga era dos sonhos: Social Content Strategist, para a COVERGIRL, marca de maquiagem. Imaginem só, trabalhar com internet e com beleza. Quem me conhece pode imaginar que isso era praticamente um sonho de princesa. Marcamos a primeira conversa pelo telefone e eu, no meu Fantástico Mundo de Bob de ser, já me imaginei no cargo, já fiquei ansiosa pelo trabalho, feliz, animada, sonhando acordada, nervosa com a entrevista em inglês. Marcamos e, depois de uma breve conversa, ela já deixou claro que eu não era a candidata ideal, visto que eles queriam alguém mais experiente na área de beleza e make. O que eu contei depois para as pessoas foi que eu fiquei feliz por terem gostado do meu currículo e por ter conseguido responder as perguntas de boa. Mas a verdade é que quando desliguei o telefone caí no choro e liguei para o Thiago. Ele, muito tranquilo, como sempre, falou que eu deveria me acalmar e ver aquilo como um treino, um aprendizado. Não dá para negar: eu fiquei arrasada. Aquela foi a primeira e última vez que eu recebi um contato de recrutador para uma vaga tão legal… Mas, quer saber? Tudo bem. Eu acredito muito que tudo na vida tem uma explicação e, cedo ou tarde, a gente entende porque certas coisas acontecem. Talvez, se a vaga da COVERGIRL tivesse dado certo, eu nem estaria aqui contando essa história para vocês. Talvez a minha vida tivesse tomado outro rumo. Talvez eu estaria mais feliz. Ou talvez não. Talvez eu não tivesse vivido metade das coisas que eu vivi, não teria conhecido metade das pessoas que conheci nem aprendido metade das coisas que aprendi. E foram muitas, muitas mesmo. Mas, isso é assunto para o próximo “capítulo”…

Quer acompanhar mais sobre a minha história? Leia os dois primeiros textos:


1 comentário

  1. Com certeza vc era muito grande para a vaga da Covergirl! Não existem simples coincidências! Tudo faz parte de um arranjo maior orquestrado por Deus! Graças a Ele vc está aqui dividindo suas dicas, parte da sua vida e fazendo a gente se envolver cada vez mais com sua missão e propósito! Só tenho que agradecer por essa troca que vc possibilita aqui! Muitas realizações mais pela frente! Muito sucesso, crescimento e felicidade a vc e seu marido! Obrigada! Bjos. 🌟😘

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