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Sleep no More – o intrigante teatro imersivo em Nova York

Desde que vim morar em Nova York, eu escutava falar sobre Sleep no More. Lia relatos, escutava opiniões, mas nunca comprava ingressos para conferir. Rolava uma falta de planejamento nesse quesito, confesso. É meio que um comodismo que acho que acontece com muita gente que mora aqui – depois eu vou. Mas, enfim, há algumas semanas, tirei um tempo, pesquisei datas, e comprei os ingressos para mim e para o Thiago. E cá estou para falar a respeito dessa experiência que é, no mínimo, genial.

Acho que parte da graça de Sleep no More é você não saber exatamente aquilo que te espera. Eu sabia que se tratava de uma peça inspirada em Macbeth, de Shakespeare. Sabia também que tudo rola no The McKittrick Hotel, um prédio com galpões.  Em 2011, quando a Emursive e a Punchdrunk, duas companhias de teatro, uniram-se para produzir o Sleep no More, que se tornou, provavelmente, experiência teatral mais original da história de Nova York – com sede nesse lugar. Outro fato que eu sabia é que era uma experiência imersiva e, por imersiva, o que eu sabia era que você seguia os atores. Também sabia que o público precisava usar máscaras durante a performance e que era preciso usar roupas e calçados confortáveis. E minhas amigas que foram me falaram: não tenta ficar com o Thiago, fiquem separados. Ok. Isso era tudo que eu sabia sobre Sleep no More.

Bem, se você caiu aqui neste post e nem sabe do que se trata o Sleep no More, vamos a uma breve explicação. É uma peça de teatro imersivo. Não espere um palco com plateia. Você é livre para andar de forma independente e acompanhar os membros do elenco como desejar. Cada ator conta sua própria história, com outros atores contando histórias interconectadas simultaneamente em outras salas e outros andares. Você não pode assistir tudo, ou seja, a experiência de cada uma das pessoas será única.

Chegamos ao The McKittrick Hotel, que fica no Chelsea, às 19h em ponto, e já avistamos uma fila longa. Levou uns 10 minutos até entrarmos e, enquanto esperávamos, um segurança conferiu os documentos de identidade de todos. Ninguém com menos de 18 anos é permitido, a menos que esteja acompanhado por um dos pais ou responsável legal. (menores de 13 anos não são admitidos). Ao entrar, tive que deixar minha bolsa no guarda-volumes – não é opcional, você não pode circular com bolsas e mochilas – e a taxa é de U$4. Depois disso, fomos para o check-in. Sim, como é um hotel, você faz um check-in. Para vocês terem ideia, não há ingressos físicos ou digitais para Sleep no More. Quando você faz a compra, o seu nome vai para a lista do hotel. Depois de nos identificarmos, recebemos uma carta de baralho cada um e ouvimos um “Good luck!”.

Depois disso, vou contar um pouco do funcionamento da peça e minhas impressões. Não são spoilers, mas se você quer continuar não sabendo o que esperar, sugiro pular para o último parágrafo. 

Andamos por alguns corredores escuros e aí já pintou um sentimento de medo – mas, antes de mais nada, quero deixar claro que é aquele medinho bom, do desconhecido, de não saber o que esperar. Tudo gira em torno de um suspense. Há uma equipe de suporte que trabalha no local e estes usam máscaras pretas. Mas eles não falam nada, apenas apontam caso você faça alguma pergunta. Pois bem, chegamos até um bar – já dá para beber algo – e ali você já encontra alguns dos hóspedes do hotel. Mulheres e homens bem vestidos e que até interagem com você – mas como personagens mesmo, não como atores. E é aí que a sua carta de baralho ganha sentido, já que os grupos são formados de acordo com o número de suas cartas. Thiago tinha a carta de número 8 e eu tinha a carta de número 9 e, como vocês podem perceber, seguimos o conselho das amigas e nos separamos (nem tivemos escolha, já que recebemos cartas diferentes).

Quando meu número foi chamado, entrei com outro grupo por uma porta e recebi minha máscara. Ali, fomos orientados a não tirá-las e também a não fotografar nem filmar nada. Além disso, o silêncio seria primordial e obrigatório a partir daquele momento. Sem conversas, sem cochichos, sem reações. Outro lembrete que fizeram foi que não há jeito certo ou errado de acompanhar a experiência. “Siga seus instintos”, eles disseram. E foi assim que fiz. Entramos em um grupo de mais de 20 pessoas num elevador comprido e escuro. A cada andar, o condutor só deixava sair  uma parte do grupo. Fiquei por último, com mais duas pessoas. E saí super empolgada já explorando.

Toda a trama se passa em cinco andares do prédio e, para vocês terem ideia, são cerca de 100 cenários e ambientes, e um elenco com mais de 20 pessoas. Obviamente, eu  não tinha ideia desses números antes da minha experiência – e só tive conhecimento disso ao pesquisar para escrever esse post. É humanamente impossível ver tudo e entender tudo o que se passa no hotel indo na peça uma única vez. Inclusive, há blogueiros que já foram mais de 150 vezes e ainda acham que não entendem a complexidade da peça e todos os detalhes como um todo. Não há diálogo – outro fato que eu não sabia e que achei interessante, pois democratiza a experiência para quem não domina a língua. Por outro lado, há uma trilha musical forte e com sincronia perfeita com tudo que acontece nas cenas. Os detalhes em cada cenário são simplesmente incríveis – e nada é por acaso. Tudo ajuda a entender a história. Muitas vezes, vi pessoas explorando os cenários sozinhas, lendo anotações e abrindo gavetas. Os cenários são bem escuros e ora representam locais fechados e hora representam locações externas.

Minha estratégia foi seguir minhas vontades. Eu encontrava uma personagem, acompanhava o que acontecia e o seguia. Quando o grupo que estava seguindo aquela personagem se tornava muito grande ou eu via ou escutava algo que me chamava atenção, eu mudava de rumo. Inclusive fui contemplada com uma cena individual, digamos assim. Uma moça da história me puxou para dentro do quarto, falou algumas coisas para mim e me deu um amuleto para me proteger. Isso é normal. Os atores se aproximam de alguém da audiência, sussurram em seu ouvido, beijam sua mão. Com Thiago também aconteceu, de outra forma, com outra personagem. Sim, dá um certo medo, mas tudo que fiz naquele momento foi mentalizar que eu estava assistindo uma peça e que não era esperado – nem recomendado – que eu respondesse. Então, é tranquilo. Essas cenas são chamadas de 1:1s – One-on-one –  são 15 cenas onde atores convidam os expectadores para cenas individuais.

São três horas no total – e cada personagem faz um loop de uma hora, retornando ao local inicial ao final de cada hora, repetido cerca de três vezes. Alguns personagens são mais estacionários em seus loops, enquanto outros são muito ativos em vários andares do edifício. E não se preocupe: quando o período de três horas se encerra, o elenco e a equipe de apoio, de alguma maneira, acabam levando todos ao bar do início.

Se eu entendi toda a trama no fim das contas? Não. Isso me fez gostar menos? De maneira alguma. Sleep no More é uma experiência e, para mim, estar tão perto dos atores, observar a atuação impecável, a sincronia da trilha sonora e das luzes e de como os personagens se encontravam à medida que a trama continuava, foi a parte mais incrível de tudo. Eu me senti dentro da história, como uma detetive tentando entender o que estava acontecendo e desvendar mistérios. A adrenalina que senti, a empolgação de andar pelos cenários, pelo desconhecido, sem saber o que me esperava, tudo isso fez com que eu amasse minha experiência em Sleep no More. Vá de mente aberta e aproveite!

Para comprar ingressos, clique aqui.

Endereço: 530 West 27th Street.


1 comentário

  1. Pirei nessa peça. CERTEZA de que iria gostar. Lembrei que já havia visto algo parecido e fui pesquisar. A peça é mostrada em Girls! (“Hello Kitty”, season 5, episode 7). E o Adam é um dos personagens, hahahah… Amei o teu relato, fiquei pilhada.

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