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Pra chegar até aqui…

Era uma segunda-feira comum. Estava concentrada, trabalhando nos conteúdos para o blog e, enquanto editava umas fotografias que seriam usadas, abri o YouTube e coloquei uma música do Cidade Negra para tocar. “Você não sabe o quanto eu caminhei / pra chegar até aqui…”. Deixei na reprodução automática, como sempre faço e, então, começaram uns acordes de piano bem familiares. A música era Epitáfio, dos Titãs.

“Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer”

Em cinco segundos, de maneira incontrolável, lágrimas escorriam dos meus olhos. Talvez tenha sido a lembrança que essa melodia me traz. É, provavelmente, umas das músicas favoritas de meu pai. Ele ouviu muito essa canção quando o Titãs a lançou, há sei lá quantos anos. Uma vez não era suficiente – ele sempre colocava para tocar outra vez. Deu saudade, sabe? Porque, quando você mora fora, a saudade é algo que, de alguma forma ou de outra, acaba se encaixando em seu dia a dia. É algo que você vai sempre carregar, não importa para onde for, não importa por quanto tempo esteja longe. É a bagagem invisível. A diferença é que o tempo, a rotina e as obrigações vão dando forma a sua vida. Você passa a ter seus momentos de lazer, seu trabalho, seus problemas. Sim, olhem que surpresa: a vida no exterior não é isenta de problemas. Tudo isso mascara a saudade. Mas, cedo ou tarde, ela dá um jeito de se fazer presente em sua vida. Seja nas lágrimas que sua mãe não consegue disfarçar através da ligação de vídeo ou através de uma canção que toca despretensiosamente enquanto você estava agindo no automático. E aí, não importa há quanto tempo você está longe: a dor é sempre igualzinha.

Mas, além da saudade, os versos da música dos Titãs acabaram me tocando de outra forma também. Acho que quando eu escutava essa música, há mais de 15 anos, não tinha maturidade – e vivência – suficiente para entender o significado daquelas palavras. Só que agora, do alto de meus 31 anos, quase 32, no meio de uma TPM terrível e um inferno astral tenso, a ficha caiu.

É, dizem que o mês que antecede o seu aniversário corresponde ao seu “inferno astral”. Segundo o que pesquisei, esse período se refere a um momento em que estamos mais sensíveis, com muita movimentação interna, preparando-nos para um novo nascimento. Se eu acredito nisso? Talvez. Pode ser que o inferno astral seja só uma invenção da sociedade moderna para que se justifiquem certas coisas – ou até mesmo para termos a certeza de que maus momentos passam.

Analisando os versos de Epitáfio, eu vejo que há algumas coisas que não tenho do que me arrepender. Chorei – e choro! – bastante, arrisquei muitas coisas – e a mudança para cá foi uma delas. Por mais que a gente tenha vindo com algo estabelecido, não há como adivinhar como será sua adaptação, como será a sua vida, se vai fazer amigos, se vai gostar da nova rotina. Mas, como eu não canso de repetir, estou longe de ter uma vida perfeita. Sim, eu tenho uma vida confortável, mas não significa que eu não questione as minhas escolhas, que eu não me compare, que eu não queira desistir, que eu não tenha medos. Ou arrependimentos. Trazendo os versos da canção para a vida real, talvez eu pudesse ter complicado menos e me importado menos com pequenos problemas. Na verdade, esses foram os versos que mais doeram e que vieram como um tapa na cara.

É engraçado como a vida te manda recados, não?


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