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Eu, Nova York, as baratas e as pombas

Era uma tarde calma de um dia de semana. Apesar de nosso prédio estar próximo a uma avenida movimentada, não escuto muitos barulhos da rua. Nosso prédio tem dois apartamentos por andar e, quem mora nos andares superiores passa, obrigatoriamente, em frente à nossa porta. Naquele dia, estava trabalhando e fui até a cozinha fazer um café. Foi aí que ouvi gritos desesperados. Eram de uma jovem. Os gritos vinham do corredor e meu primeiro pensamento foi medo: o que será que poderia estar acontecendo? Meu primeiro impulso foi o de ir até à porta e espiar pelo olho mágico. A dona da voz estava na porta do apartamento em frente ao nosso, enquanto no corredor um rapaz dava pisadas fortes no chão. Estava matando algum bicho. Primeiro pensamento: rato. Ah, não, será que depois de quatro anos morando em Nova York havia chegado a hora de lidar com os ratos? Observando mais um pouco, desvendei o mistério: era uma barata. Mas não era qualquer barata. Era uma barata gigante. Não que eu tenha pavor de baratas – eu as encaro corajosamente e extermino qualquer resquício de vida, mas quem é que quer viver com baratas?

Mais tarde, qual não foi a minha surpresa ao entrar no banheiro e encontrar o quê? Sim, uma barata. Grande, robusta, com antenas ligadas.  O susto foi grande, confesso, mas eu agi rápido. Fechei a porta – sim, fiquei em um recinto pequeno, fechado, com uma barata – peguei o inseticida e comecei o procedimento, que foi finalizado com sucesso. Nem sempre foi assim. Nem sempre eu tive tal coragem, e nem sempre tivemos inseticida em casa. Que tipo de pessoa vive sem inseticida em casa? Eu mesma. No antigo apartamento, morava no quinto andar e nunca tive problemas com insetos voadores. No atual, as janelas contam com tela de proteção, que, em tese deveria impedir a entrada de visitas indesejadas, certo? Parece que não. Descobrimos uma falha em uma das telas e sempre éramos contemplados com uma visita tão irritante quanto a de uma barata: moscas. Quando descobríamos que elas estavam dentro do apartamento, já estavam em tamanho indescritível. Pergunte se tínhamos inseticida nessa época? Nope. E inseticidada era o tipo de coisa que só lembrávamos quando precisávamos. Para nos livrarmos das tais moscas, fazíamos uma maratona. O pescoço não dava conta de olhar pra lá e pra cá para acompanhar o voo da tal mosca. A torcida era para que ela entrasse em um ambiente fechado – de preferência no banheiro. Algum de nós se trancaria com ela dentro do banheiro e só sairia de lá com o serviço finalizado. Era uma verdadeira gincana. Nossa estratégia? Embebedávamos a tal mosca com spray de ambiente. Demorava, mas surtia efeito. Até que criamos vergonha na cara e compramos um inseticida.

Se as baratas não me assustam tanto, já não posso afirmar o mesmo em relação às pombas. E tá aí um bicho que existe em exagero em Nova York. Muita gente teme os ratos. Eu temo as pombas. Enquanto os ratos só dão o ar da graça nos trilhos do metrô de algumas estações, as pombas estão em todos os lugares. E tá aí uma espécie que precisa ser estudada pela ciência. Meu sonho é atingir o nível de maturidade de certos novaiorquinos, que andam nas ruas e ignoram a existência das pombas. Acho louvável, admiro quem tem essa postura. Porque eu, até agora, não consigo ignorar a existência delas – muito pelo contrário, acho que são elas que ignoram a nossa existência e vivem rebolando por aí como se fossem donas das calçadas. Experimente passar perto de uma pomba. Elas têm preguiça de voar, só pode. Elas andam, vão correndinho e só voam em último caso. Mas esse último caso pode acabar sendo fatal. Eu tenho certeza de que elas não pensam nas consequências de voar assim de supetão. Elas não calculam. Perdi as contas de quantas vezes pombas passaram por mim “tirando fino”, quase batendo em mim. E eu estou sempre passando vergonha pelas calçadas da cidade. Se vocês virem alguém se abaixando quando uma pomba voar, se vocês virem alguém mudando o trajeto na calçada para desviar de uma pomba: há uma grande possibilidade de esse alguém ser euzinha. Como mencionei, em nosso atual apartamento, há telas de proteção, então, no verão, eu abro as janelas sem medo. Nem sempre foi assim. No último apartamento, uma das janelas não tinha essa tela. No verão, eu deixava essa mesma janela aberta apenas alguns centímetros – calculava mentalmente se era possível uma pomba passar por aquele espaço. Afinal, elas estavam sempre ali, na escada de incêndio, ou em cima do ar condicionado, dando o ar da graça e me matando de susto. Ratos com asas, sabe como é.

Pode rir à vontade. Depois que uma seguidora me contou que já foi “atingida” por uma pomba em um desses voos não calculados, continuarei desviando delas e pagando alguns micos pela cidade. Cada louco com suas manias, né?

Falando em ratos, tá aí  outro bicho que existe em abundância por aqui. A verdadeira Nova York coexiste com ratos. Muitos ratos. Nas estações de metrô mais antigas, é comum se deparar com eles passeando pelos trilhos do metrô. É a realidade. Esteja preparado – ou melhor, se não tiver coragem, melhor nem olhar para os trilhos. Eles estão lá: vivos, felizes e alegres, explorando o ambiente propício para a reprodução. Não pense que são ratinhos, ok? São grandes, robustos, rabudos. Já tive a infelicidade de encontrar um na plataforma. Calma, foi somente uma vez, em quatro anos. Estava a uma distância segura, observei com calma para saber o que fazer caso ele decidisse vir em minha direção. Ali, vi um casal que também estava preocupado com a presença daquele roedor. Ela se protegia atrás dele, ria um riso nervoso. Brasileiros. Acabou que pegamos o mesmo trem, descobrimos que morávamos na mesma região e eu ainda falei de um curso que estava planejando fazer naquele verão. Adivinhem? Ela virou minha colega de curso mais tarde. Viram? Ratos podem unir pessoas.

Mas, podemos não falar só sobre as pragas, não é mesmo? Afinal, a população de cachorros de Nova York deve ser quase proporcional à de pessoas. Exageradamente falando, claro, mas nunca vi um povo para gostar tanto de cachorros como os novaiorquinos. Adoro observar. São dos mais diferentes portes, cores e estilos. Estão pelas ruas correndo com seus donos, brincando nos parques. Até hoje, eu me questiono como esses cachorros vivem, dado que o tamanho médio dos apartamentos em Nova York é pequeno. Também nos chamou muito a atenção, no começo, a educação dos bichanos. Não sei, parece que eles latem menos aqui – foi algo que nos deixava de queixo caído no começo, juro. E cachorros geram empregos: há quem ganhe uns bons dólares por hora para levar seu pet para passear. Tratamento vip. Afinal, não dá para ter cachorro só para mantê-lo em casa, né? É tanto cachorro pelas ruas que não é difícil encontrar uma plaquinha orientando o recolhimento do “material” após ele fazer o serviço. Por via das dúvidas, melhor caminhar ligado por aí – você nunca sabe quando o dono de um cachorro se fez de louco e deixou o dejeto na calçada. Ah, quer ter mais uma ideia da população de cachorros da cidade? Quando vier para cá no inverno e pegar a cidade coberta de neve, observe as manchas amarelas na neve à medida que caminhar nas calçadas… Juro, você vai perder as contas, hehehe!

Depois de falar de tanta sujeira, jamais questione o motivo pelo qual você precisa tirar os calçados ao visitar alguém aqui em Nova York. Estamos combinados?

“You’re not a real New Yorker until you’ve killed a cockroach with your bare hand.” – Marshall, HIMYM.


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