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Os brasileiros e a língua portuguesa na terra dos gringos

“Colocar junto”. Essa foi a expressão que a brasileira usou para explicar ao namorado gringo como se falava “put all together”. Estávamos na fila do coat check na balada, ou, traduzindo, o lugar onde todo mundo deixa os casacos ao entrar em uma festa ou restaurante. Faz parte da rotina de inverno da cidade. Naquela noite, mais tarde, no mesmo lugar, esperando nossa vez para pegar os casacos e irmos embora, mais um diálogo em português. Três meninas conversavam sobre relacionamentos, sobre caras e sobre decepções. Quando escutaram a gente falando português, viraram e checaram. É quase como um reflexo, é automático. Talvez essas conversas em português não chamassem a atenção no Brasil. Mas a dimensão das coisas muda bastante quando você transfere o fato para o cenário gringo.

Todo mundo já deve ter sonhado em ser invisível algum dia ou, pelo menos, em ter algum super poder. Quando se mora fora, numa cidade onde a língua oficial não é o português, é como se, de alguma maneira, incorporássemos uma espécie de poder especial. Você fala ao telefone, troca confidências com as amigas, xinga, fala besteiras. E ninguém entende. Ou, pelo menos, você acha que não. É esse sentimento de confiança que faz não ter problema algum contar segredos por áudios de Whatsapp gravados no metrô ou ligações no meio da rua enquanto você caminha de um lugar para o outro. É como na sala de aula, quando você trocava bilhetinho para comentar alguma coisa – a diferença é que você não precisa sussurrar. Parece ótimo na teoria, não? Na prática, não é bem assim que funciona.

Sempre digo que brasileiro está em todo o lugar. Não importa qual seja o local – você vai cruzar com algum brasileiro em seu caminho. Em uma cidade como Nova York, então, nem se fala. Eu moro em um bairro bem residencial e confesso que sempre me chama a atenção quando alguém passa por mim falando português. Mas, se eu estiver em uma região mais turística, nem vou me surpreender tanto. Pelo contrário, gosto de escutar os papos, os planos, as conversas exaltadas e animadas de quem está nessa cidade. Às vezes, dá vontade de pedir licença e dar algum palpite ou sugestão, porém, nunca tive coragem. Cada um, cada um, né?

Claro que, além dos papos legais, também presenciamos algumas situações constrangedoras. E é engraçado, porque, afinal, gafes e mau comportamento não são exclusividade de nenhum povo. Já vi gente de todos os lugares do mundo em situações vergonhosas, mas, quando se trata de alguém da minha terrinha, não sei explicar. É como se fosse alguém da sua família e que você pensa: poxa, amigo, faz isso não, vai. Já vi de tudo: desde gente que fica xingando em voz alta os gringos que estão atrapalhando a foto até aqueles que estão dentro do metrô reparando em coisas que não são da conta deles. Tem as situações engraçadas também. Nunca vou esquecer a vez em que estávamos na Macy’s e meu marido me relatou uma situação bem humorada Starbucks. A senhora brasileira gritava com a atendente – que claramente não entendia uma palavra: “A-NI-TA. O meu é GE-LA-DO”. Admiro muito a força de vontade dos brasileiros que não falam inglês, mas que não se intimidam. Estão mais que certos, só não precisa gritar.

Obviamente, eu não vou ficar só falando dos outros, afinal, em quatro anos morando fora, eu também coleciono umas situações engraçadas. Tem umas que acontecem só para me lembrar que não sou a única pessoa do mundo que fala português – e que, como eu mesma mencionei acima, sempre tem algum brasileiro perto de você. Da última vez em que estávamos no aeroporto, decidimos comer um Mc Donald’s. Olhando os números dos combos, pensei em voz alta: qual a diferença do número 4 para o número 5? Uma voz masculina, ao meu lado, responde: acho que é só o número de calorias. Também já fui surpreendida positivamente. Pensamos, por exemplo, que gringo nenhum vai querer aprender português, né? Ledo engano. Uma noite, estava caminhando pelas ruas do Brooklyn com o Thiago, conversando e divagando sobre mil coisas, quando um cara passa ao nosso lado e nos pergunta, naquele sotaque carregado: são brasileiros? Surpresos, respondemos positivamente e ele logo comentou que aprendeu português e já havia morado em São Paulo. Falava bem – e aproveitei para falar isso para ele. Eu adoro quando alguém elogia o meu inglês, por que não posso fazer o mesmo, né?

Eu também já quis sumir do mapa ao ter a minha “identidade” brasileira revelada. Foi quando caminhava na rua com uma amiga. Estávamos num papo animado sobre sexo – não façam cara de espanto: por que mulheres não podem falar sobre isso? Minha amiga me contava sobre “brinquedinhos”. Estávamos atravessando a rua, nossa conversa muito animada, e passamos conversando por uma senhora. Ouvi-a dizendo: falam português? Meu primeiro reflexo – eu avisei! – foi olhar para trás e ver a senhora caminhando muito calma, com sua bengala, olhando em nossa direção e sorrindo. Olhei para a minha amiga, fingimos demência, aceleramos o passo e até mudamos a rota do caminho. Claro que acabamos na gargalhada – e fomos mais contidas no caminho até em casa. Provavelmente, pela cara, a senhora não escutou o assunto da nossa conversa, mas né… Essas coisas rolam para lembrar você que, apesar de parecer, a gente não tem super poderes. Não somos invisíveis por estarmos conversando em português em terra gringa – ao contrário do que acreditamos.

Voltando ao tal reflexo que temos de olhar para saber de onde vem a voz falando português, eu lembrei algo que até hoje não entendo. Um comportamento muito comum repetido por alguns brasileiros quando encontram outros brasileiros. Você está lá, decidindo o que comer, falando dos preços, olhando um produto – whatever. Está em uma situação normal do dia a dia, sem dividir segredos e aí algum brasileiro o escuta e fala: brasileiros! Acho engraçado, confesso, mas juro que não entendo a necessidade disso. Claro, tem vezes que a pessoa se sente até mais aliviada ao ouvir falando a sua língua e chega para conversar e bater um papo. Mas tem os que só soltam um: “brasileiros!” e nunca mais olham para trás. The zoeira never ends, não é mesmo? Eu já sou exatamente o contrário quando detecto brasileiros no recinto. Não me escondo, mas confesso que, algumas vezes, já travei. É meio como se perdêssemos a liberdade – e isso acontece só para lembrá-lo de que, de novo, você não é invisível.

No fim das contas, todo mundo curte, de alguma maneira, essa sensação de anonimato temporário, de poder falar sem censura e sem julgamento. Entretanto, encontrar pessoas que falam a sua língua é também algo incrível. Afinal, minhas maiores amizades nesta terra são com brasileiras maravilhosas, com um coração do tamanho do mundo e sempre dispostas a dar um abraço. Esse calor brasileiro é sempre bem-vindo, principalmente quando se vive em um lugar onde a sensação térmica chega a -20. Não adianta: morar fora é uma aventura cheia de desafios diários e encontrar pessoas com as quais se consegue, pelo menos, falar a mesma língua, alivia o nosso coração e nos aproxima um pouquinho daquilo que ficou tão longe e que aperta nossos corações todos os dias.

Tem gente que adora negar o fato de ser brasileiro, tem gente que adora falar mal de outros brasileiros, tem gente que só reclama do Brasil. Por mais que os caminhos da vida tenham me trazido para Nova York, não posso negar as minhas origens, a minha língua e a minha família. Não sei se um dia eu volto, mas nunca poderei negar quem sou.


1 comentário

  1. Adorei a crônica, principalmente o que escreveu no final. Admiro muito pessoas que moram fora do Brasil, mas não negam suas origens. 🙂

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