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O Natal, o ano novo e a melancolia

Eu sempre fico mais pensativa quando chega a época de fim de ano. Gosto da sensação de gás que um ano novo traz. E curto, sim, fazer metas, mas minhas metas são mais como um planejamento daquilo que pretendo fazer no ano. Desta vez, depois de dois anos consecutivos passando Natal e ano novo no Brasil, optamos por ficar em Nova York. No meio de um período pós-viagem de duas semanas, amigos visitando e muita correria, deu para refletir um pouco aqui e um pouco ali. Eu sei que as duas datas já passaram, mas só agora encontrei tempo para organizar os pensamentos.

As coisas já foram diferentes com o Natal. Eu, que sempre amei a data, acabei preparando um jantar em casa de última hora com uma decoração comprada na farmácia no mesmo dia – a vantagem é que tudo estava em promoção – além de também não seguir nenhum cardápio clássico. Eu, que sempre organizei mentalmente a lista de presentes com antecedência, comprei tudo em cima da hora. Eu, que terminava o Natal com aquele gostinho de frustração pela data ter acabado, não senti melancolia nem tristeza quando todos foram para suas casas naquela noite gelada – antes da meia-noite. Também não senti aquele sentimento de excitação durante os dias que antecederam a data. Pode ser pelo fato de não ter parado um minuto, talvez. O Natal que ainda habita a minha memória é mais feliz e talvez nenhum dos próximos Natais supere aqueles das antigas lembranças. Era aquela data que fazia eu contar os dias e as horas. Era a época mais mágica do ano. A gente esperava pacientemente na porta de casa pelas camionetes buzinando com o Papai Noel na parte aberta, jogando balas pra nós e para as outras crianças da rua. As noites eram frescas e o breu nem tinha tomado conta por causa do horário do verão. Na véspera de Natal, era aquela ansiedade para abrir os presentes – trazidos, é claro, pelo Papai Noel. Meus pais sempre davam um jeito de chamar alguém para fazer esse papel. Antes desse ritual, tinha a missa tradicional. Eu gostava de ir porque ficava encantada com a encenação do nascimento de Jesus. Era a hora da celebração pela qual eu mais esperava. Posso dizer que eu queria ir à missa só para ver o tal teatrinho, como eu chamava. Nenhuma vitrine da Saks e nenhuma árvore do Rockefeller Center me trazem a mesma sensação.

Quando eu comecei a ter meu próprio dinheiro, não perdia a oportunidade de comprar presentes para a família. No começo, eu e a minha irmã dividíamos a despesa. Todos os presentes (para mãe, pai, irmão) eram minuciosamente pensados e pesquisados. Embrulhava cada um com carinho e amava poder fazer isso. Ficava mais ansiosa que eles para a abertura dos presentes. Esse sentimento é tão gostoso. Até hoje, eu amo poder presentear pessoas queridas. Talvez até mais do que ganhar presentes. Claro que eu adoro ganhar presentes, mas, não é mais a mesma coisa. Explico: quando somos crianças, não podemos ter tudo o que queremos (o que é ótimo e nos dá uma boa noção de como valorizar o que temos). Hoje, mais velha, com uma vida financeira estabilizada, eu posso dizer que tenho, sim, uma vida boa – não tenho luxos, mas sei dos meus privilégios. Moro num lugar onde muitas coisas – que no Brasil têm preços estratosféricos – são acessíveis. Não ligo para marcas, não tenho frescura – como de comida de rua até comida de restaurantes badalados. Não tenho uma lista de desejos. Também tenho um limite mental de orçamento máximo para gastar com tal coisa. Em letras miúdas, eu zelo pelo meu dinheiro. Tem coisas que posso ter mas não simplesmente  não quero comprar – porque sei que não preciso. E quando você chega num ponto da vida em que se dá conta disso, é meio louco, confesso. Não é arrogância – é simplesmente porque crescemos condicionados a desejar, trabalhar para conseguir e, então, comprar. A verdade é que eu já tinha começado esse processo de “desapego” antes de mudar para Nova York, quando tive que me desfazer 90% das coisas que eu tinha e partir para uma nova vida com duas malas. Quatro anos se passaram e a pergunta que fica é: aqueles 90% de coisas fizeram falta? Nenhuma. Provavelmente os 90% de coisas que tenho hoje também não são indispensáveis. E longe de mim querer dar lição de moral – ainda tenho que mudar muito os meus hábitos de consumo. Mas ainda acho que eu me saio muito bem nessa tarefa, ainda mais vivendo numa cidade como Nova York. Meu marido ficou surpreso, outro dia, quando me perguntou o que eu faria se virássemos milionários amanhã. Para a surpresa dele, eu respondi que compraria um celular novo e um trench coat da Burberry. E escolheria morar num apartamento num prédio com mais estrutura. Esses desejos são inalcançaveis hoje? Nope.

Voltando a falar do fim de ano, confesso que por alguns momentos bateu um desespero em saber que existia uma chance de passarmos o Natal sozinhos. Sim, tivemos companhias especiais mas li e ouvi muitas coisas que me fizeram pensar. Acompanhando uma reflexão da Fernanda Neute, de repente veio um estalo. Com a era da internet, a gente segue milhares de pessoas compartilhando seus planos, suas festas, suas ceias, seus looks, suas viagens de ano novo. Soma-se a isso a propaganda na TV, nas revistas e nas ruas lembrando que seu Natal precisa ter aquele prato e aquela bebida, sua virada de ano precisa ser uma festa de arromba, de preferência num destino paradísiaco. Tudo isso gera uma pressão e uma ansiedade para que a data seja inesquecível. Acho que são válidos os esforços sim, desde que eles sejam genuínos e não pelo sentimento de que “todo mundo está fazendo então eu preciso fazer também”. No fim das contas, sei lá, acho que conta muito o sentimento que carregamos dentro de nós.

Falando em ano novo, tá aí uma data que eu nunca amei. Não sei exatamente o motivo, mas fico de boa se não tiver grandes comemorações. O que curto mesmo é a sensação de renovação, de que, de alguma maneira posso começar de novo, de que tenho mais uma chance. Talvez isso seja só uma válvula de escape, porque alguém um dia inventou que deveríamos contar os anos, os meses, os dias e as horas. O “não deixe para amanhã o que pode ser feito hoje” nunca fez tanto sentido, né? Porque, além de tudo, somos muito confiantes e achamos que estamos no controle de tudo. Só achamos. Afinal, nossa vizinha do 3B, que tem Alzheimer e bateu à nossa porta pouco após o nosso brinde de ano novo, à procura de sua irmã, fez eu lembrar que a vida pode não ser assim tão simples para todos. Eu, que achava a minha festinha de ano novo em casa tinha sido coisa simples, sem nada de especial, fui dormir pensando nela. Enquanto eu estava comemorando, comendo e rindo, ela provavelmente foi acordada com nossas risadas e nossa música. Possivelmente, aquela noite do dia 31 não teve nada de especial pra ela. Foi só mais uma noite, como tantas outras.

É, estou melancólica. Talvez seja a enxurrada de pensamentos do fim de ano, talvez seja a lua em câncer.

Lembranças de um tempo muito especial. Minha primeira bicicleta, no Natal de 1989. 
Lembranças de um tempo muito especial. Minha primeira bicicleta, no Natal de 1989. 


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