lifestyle

4 anos morando em Nova York

Hoje é dia 3 de janeiro de 2018. Esse texto só vai ser publicado depois, mas a data merecia ser citada. Hoje eu e o Thiago completamos quatro anos de Nova York. Engraçado que passei o fim de ano inteiro respondendo às perguntas sobre meu tempo aqui dizendo que completaria quatro anos em janeiro e,  quando a data enfim chegou, quase passou batida se não fosse a lembrança do meu marido – ou o Facebook trazendo suas lembranças. Quatro anos. Sim, quatro anos podem não parecer nada para os veteranos que já colecionam décadas na cidade. Mas, números à parte, eu gosto é de lembrar do que vivi, do que sofri, do quanto fui feliz e do quanto mudei em quatro anos.

Eu sempre falo aqui sobre o quão desafiador é uma mudança para o exterior. O engraçado é relembrar a nossa vida antes dessa tal mudança – que acaba se tornando um marco na nossa trajetória. Acho que já comentei vários detalhes do antes, durante e depois, mas alguns acabaram se perdendo. Como a sensação que eu tive quando o Thiago me contou que tinha sido contratado por uma empresa daqui. Vejam bem: eu fui a maior incentivadora dele. Dava apoio na hora de fazer as entrevistas, estava lá ao lado dele o encorajando a continuar o processo. O clima era de oba-oba. “Já pensou? Vamos morar em Nova York!”. Àquela altura, eu já conhecia a cidade: tinha vindo pra cá em agosto de 2013, em dias de verão que fizeram eu me apaixonar por cada esquina. Quando veio a confirmação, as pernas tremeram, o frio na barriga foi inevitável e o desespero foi grande: E AGORA? Eu já tinha saído de casa para fazer faculdade, mas duas horas de ônibus são diferentes de 10 horas de avião. Em dois meses, eu casei, entreguei o meu apartamento (alugado), vendi 80% das minhas coisas, doei algumas. Tive que me desapegar de muita coisa. Doeu, doeu bastante. Voltei para a casa da minha mãe por algumas semanas e chorei igual uma criança abraçada à ela na véspera do embarque. Eu lembro até hoje: era dia 1 de janeiro, eu já tinha ido deitar,  mas uma angústia consumia meu peito. Minha mãe estava na sala assistindo TV e eu levantei da cama, fui até  a sala e a abracei, caindo aos prantos. Eu não sabia bem por que eu chorava: era um misto de medo, de tristeza, de saudade antecipada. Ela me disse que ia ficar tudo bem. Eu dormi, acordei, encaramos a estrada até o aeroporto e nos despedimos. Sem choro.

Outra lembrança que ficou na minha memória foi a viagem em si. Saímos de Porto Alegre com direção a Miami, onde tínhamos uma conexão para Nova York. Ao desembarcar do avião, fomos avisados que todos os vôos para Nova York tinham sido cancelados. O motivo? Uma nevasca. Foi um banho de água fria – ou gelada? Com a orientação de voltar ao aeroporto no dia seguinte, bem cedo, encontramos um hotel, dormimos e voltamos para onde tomaríamos um longo chá de cadeira. Foi uma provinha para mostrar que nem tudo são flores. Era um desencontro de informações inacreditável. Nenhuma previsão de embarque e a gente só com a roupa do corpo. Soma-se a isso a dificuldade de argumentar em inglês com o pessoal da companhia aérea, o cansaço, a revolta. Eram 10 da noite e eu, sentada na sala de embarque, desabei a chorar. Chorei como se não houvesse um mundo de pessoas ao meu redor. Lembro de ver um menino me olhando assustado. Acho que ele ficou com pena de mim. O que eu queria era voltar para o Brasil no primeiro voo. No meio daquela choro desesperado, ouvi nossos nomes. Estavam nos chamando para embarcar. Agora, sim, iríamos para Nova York.

Mas não era a mesma Nova York pela qual me apaixonei. Era uma Nova York gelada, com muita neve e termômetro marcando 11 abaixo de 0. Eu subestimei o frio da cidade, confesso. Enquanto arrumala as minhas malas e separava as peças para vestir quando eu chegasse ao aeroporto, minha mãe me alertou que aquilo seria pouco. Eu ri. “Mas bem capaz, nem vai estar tão frio assim”. Sim, a blogueira que hoje te ensina tudo sobre o clima subestimou o frio de janeiro. Novamente, minha mãe me avisou: “tu não tem noção do frio, né?”. É, mães sempre têm razão. Elas sabem até daquilo que não conhecem. Como vocês podem imaginar, ela estava certa, obviamente. Lembro da primeira rajada de vento que bateu no meu rosto ao sair do aeroporto para correr para um táxi. Paralisei. Não conseguia respirar. Não conseguia falar. É – definitivamente, o inverno em Nova York não estava para brincadeira. Lembro também do meu desespero no dia seguinte, quando saímos para dar uma voltinha. As ruas estavam cobertas de neve e o ar era tão gelado, mas tão gelado, que era difícil respirar. Eu andava com um cachecol protegendo o nariz. Era o primeiro dia nessa cidade tão intensa. Mal sabia eu tudo que ainda estava por vir.

Foram tantas aventuras… As frustrações na hora de alugar um apartamento. As tentativas fracassadas de falar inglês. A primeira vez que eu olhei para a janela e vi a neve caindo. Os móveis que aprendemos a montar. Descobri que há comidas fantásticas aqui, que o mercado pode ser um parque de diversões, mas que a carne pode ser muito cara e que papel higiênico é quase como artigo de luxo, por causa de seu preço. Demorei três anos para descobrir qual tamanho de absorvente higiênico comprar. Vivi uma lua de mel com a Times Square antes de seguir o bonde e não curtir mais. Ajudei pessoas na rua e me senti a pessoa mais útil do mundo. Fiquei ruiva e fiquei loira. Atravessei a Brooklyn Bridge umas dez vezes – e senti meu coração bater mais forte todas as vezes.  Conversei com estranhos no correio, nos mercados, nas lojas e senti um conforto no coração. Chorei no transporte público. Xinguei mentalmente e verbalmente – em inglês e português. Realizei sonhos: estudei no FIT, tirei foto com a Michelle Williams, assisti a shows do Hanson e do Bon Jovi e vi Katy Perry por acaso. Provei as mais variadas comidas. Aprendi a gostar de pimenta e a tomar café sem açúcar. Tive projetos fracassados. Gastei horas no Skype, no WhatsApp. Chorei de saudades. Acordei no meio da noite pensando nos meus pais. Mais de uma vez.

Fiz amizades dos jeitos mais improváveis possíveis – e criei laços eternos com pessoas que passaram pela minha vida. Ah, as pessoas… Como não lembrar de cada uma delas depois desses quatro anos? Foram tantas pessoas especiais que entraram na minha vida e outras que saíram, pelos mais variados motivos. Tem gente que sai da sua vida na mesma velocidade que entra. Seja por conta de uma mudança ou por razões que você nunca vai entender. Nunca aquela frase “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”  fez tanto sentido. Tenho amizades preciosas no Brasil, que são importantes até hoje na minha vida mas acho que nada se compara ao quanto você se apega às pessoas quando está longe de casa. É tudo muito intenso.

O aprendizado nesses quatro anos foi profundo. Se eu teria aprendido e mudado tanto estando no Brasil? Não sei. Nunca saberei a resposta para essa pergunta. Mas sou feliz com a pessoa que me tornei – e que ainda aprende todos os dias. Tomei decisões difíceis na minha vida e dizer sim para Nova York não foi uma decisão fácil. Muita gente fala que mudaria sem pestanejar – mas quem mora fora lida com batalhas diárias. É fácil dizer sim para o glamour quando não se sabe como funciona o sistema e o que se passa atrás de cada uma das portas e das janelas. É fácil dizer sim quando você não tem ideia do que vai ter que abrir mão e de quantas vezes vai cair e vai ter que levantar – até que algo dê certo. Não foi uma jornada fácil – mas foi uma jornada feliz. A Laura que chegou aqui trouxe com ela quatro clientes de mídias sociais para trabalhar remotamente – porque não teve coragem de largar o certo para encarar o duvidoso. Essa mesma Laura se apaixonou por Nova York em um ano e roeu as unhas por quatro meses enquanto esperava a resposta do novo visto. Ela também teve que admitir para si mesma que, depois de quase dois anos, não fazia mais sentido manter o foco trabalhando para o Brasil  em algo que não a levaria a lugar nenhum.

E quer saber? Ainda bem. Foi essa mesma Laura, com medo do desconhecido, que conseguiu enxergar uma cidade com potencial infinito. Uma cidade que ofereceria temas para infindáveis posts. A cidade se tornou meu combustível e meu laço com pessoas que sonham em conhecer esse lugar. Um lugar que nunca esteve nos meus sonhos, mas que transformou a minha vida de um jeito que eu nunca poderia imaginar. Mensagens cheias de gratidão de pessoas que eu nunca vi, abordagens na rua cheias de carinho, oportunidades únicas e especiais que eu tive e que me fazem concluir o quão privilegiada eu sou e que enchem meu coração de amor e de satisfação por poder trabalhar com o que eu curto. É, Nova York. Esses quatro anos valeram muito à pena. Obrigada por tudo.

Às vezes, não parece que estou aqui. Aí, eu vejo o Empire State, Lady Liberty ou um táxi amarelo e pronto. A ficha cai. Gotta love New York.

 


9 Comentários

  1. Que texto maravilhoso, Laura! Faz alguns dias que te acompanho no Instagram. A conheci através da Fê Neute, a quem eu adoro e me faz suspirar por New York! Estou adorando o tipo de conteúdo que você aborda, especialmente as dicas e o NY News, achei maravilhoso, hahaha!

  2. Lindo texto Laura!!! Saiba que sem vc não viveria muita coisa em New York. Com vc e a Patrícia aprendi até a carregar o bilhete do metro nas máquinas e conheci meu restaurante mexicano predileto, rsrsrsrs…
    Parabéns!!! São poucas as pessoas que estão dispostas a dividir suas experiências com outras pessoas.

  3. Oi Laura, excelente texto.
    Realmente mudar para um outro país não é só luxo e “viver bem” como todos pensam, é uma mudança radical de costumes.

    Adoro ler teus posts, primeiro porque tu é minha conterrânea (rs) e segundo porque os teus textos são de fácil entendimento abordando temas que são de muita importância para quem vai visitar NYC.

    Um grande beijo e muito sucesso a você.

  4. Amei o texto, muito verdadeiro. Tenho planos de mudar de país e já tive algumas experiências curtas para sentir o “clima”, inclusive em Nova York. É bem assim mesmo, desconhecido, atraente, triste e feliz ao mesmo tempo.. Obrigada por compartilhar. Me ajudou bastante.

Leave a Response