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Morar no exterior e a arte de lidar com as despedidas

Escrevo esse post ainda no Brasil – mas já estarei de volta a Nova York quando ele estiver no ar. Faltam seis dias para o meu voo de retorno. Confesso: a dor da partida sempre toma os meus pensamentos, não importa quanto tempo falte para eu voltar. Entretanto, é quando eu entro nessa contagem regressiva que a angústia começa a aflorar ainda mais na pele. Eu me queixei para a psicóloga, mas ela já me avisou que não tem jeito: vai doer, de novo, sim, e que eu preciso deixar esses sentimentos virem à tona. Sem segurar o choro, sem fingir que está tudo bem. Todavia, decidi escrever, porque escrever acalma meu coração e, consequentemente, acaba trazendo o consolo daquelas pessoas que vivem essa contradição e sabem do que estou falando.

Eu confesso que tentei, arduamente,  nesses dias, lutar contra essa dorzinha que vai chegando devagar e tomando conta. O exercício era simples: lembrar, com alegria e entusiasmo da vida que me aguarda ao meu retorno a Nova York. Das amigas que estão lá, da minha casa, do meu marido, da energia da cidade, dos programas que já estão combinados. Eu paro e penso em tudo que Nova York já me proporcionou e me proporciona: o reconhecimento do trabalho que eu desenvolvo na internet, as oportunidades que eu já tive, os lugares maravilhosos que conheci e, acima de tudo, as lições que eu aprendi. Eu  me dou conta de como tenho uma vida boa e de como preciso ser grata e não reclamar. Se o exercício funciona? Digamos que é 50/50. Essas expectativas ajudam, sim, a amenizar a dor da despedida, mas não dão conta.

E quando eu falo em dor, eu estou falando em dor de verdade, não dor figurada. Tá, talvez não seja uma dor física, mas é algo que você sente mesmo – e quem já passou por isso vai entender. Primeiro, cai a ficha de que o tempo passa e vai chegar a hora de partir. Aí, o coração dispara e parece que a garganta fecha. Bate um desespero, uma agonia. É algo difícil de explicar – e pesado de sentir, na mesmíssima proporção. É a mesma sensação que eu tenho quando estou em Nova York e bate aquela saudade. Não dá para fazer nada a respeito.

A essa altura, também já bolei algumas estratégias, claro, para evitar a hora mais dolorida: o aeroporto. Ah, os aeroportos. Tenho uma relação de amor e ódio com eles. Isso porque esses lugares podem representar momentos de felicidade extrema ou tristeza profunda. O sentimento de chegar no Brasil e reencontrar as pessoas que amamos é de uma euforia que não cabe no peito. Você fica procurando a carinha dos seus pais no meio daquela gente e corre pro abraço. Não foi o que aconteceu dessa vez, já que eu apareci de surpresa. Igualmente, jamais vou esquecer a reação do meu pai ao me ver no portão de casa e a reação da minha mãe quando apareci na casa da minha avó, onde ela, muito tranquila, tomava seu café da tarde. Porém, a tristeza da partida é proporcionalmente dolorosa. São promessas mentais de “não vou chorar” ou “dessa vez não vai doer tanto” que são descumpridas num piscar de olhos. Você adia o momento de embarcar até o último segundo, mas a hora daquele abraço chega… e aí você abraça uma, duas, três vezes – bem apertado pra segurar as lágrimas, que, a essa altura já estão desabando dos seus olhos. Você nem se importa mais com os olhares dos outros – porque é preciso colocar pra fora, o coração não aguenta. Morar fora é lidar com esses encontros e despedidas nos aeroportos. É como morrer um pouquinho na partida e nascer novamente na chegada. A cada despedida, a cada ano, eu concluo: não tem explicação nem remédio para curar. É o ônus por eu ter feito essa escolha de ir para longe.

Durante todos esses dias, lembrei de tudo que já li e ouvi sobre morar fora. E, de tudo que absorvi, uma frase não sai da minha cabeça. Uma frase que escutei, inclusive, durante esse período no Brasil. Esta mesma frase explica tantas coisas, coisas que não preciso justificar, coisas que são o que são e não há o que fazer: não confunda saudade com vontade. Toda vida que eu conheço alguém, rola a mesma pergunta: “tem vontade de voltar para o Brasil?”. A resposta é sempre a mesma: hoje não. Amanhã não sei. Sou feliz com a vida que levo, mas isso não significa que a minha vida seja perfeita. O saldo disso tudo, obviamente, seria a saudade. São 27 anos de Brasil, família e amigos contra 4 em Nova York.  A capital do mundo vai precisar me surpreender muito ainda para compensar essa diferença. E, por mais que ela tente, jamais vai tomar todo o meu coração…

O interessante é que agora, concluindo essa reflexão, já me sinto mais calma. O coração aquietou-se, e encontrou um pouquinho de paz depois de alguns momentos de tanto aperto. Enquanto fiz algumas pausas para escrever esse texto, andei pra lá e pra cá, fui até a varanda, observei a rua, ouvi os pássaros cantando, o carro de som anunciando a venda de alguma coisa, a mulher passando com carrinho de mão. Olhei tudo, respirei fundo e, elas chegaram: as lágrimas. Tímidas no começo e mais intensas com o passar do tempo. Segui o conselho que ouvi na terapia e deixei elas virem, livres, verdadeiras, genuínas, doloridas.

“Você nunca será completo em casa novamente, porque uma parte do seu coração vai estar sempre em outro lugar. Este é o preço que você paga pela riqueza de amar e conhecer pessoas em mais de um lugar.” (Miriam Adeney) 


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